[CAPITULO LXXXI]

Antes de cuidar da noiva, cuidou do casamento. Naquelle dia e nos outros, compoz de cabeça as pompas matrimoniaes, os coches,—se ainda os houvesse antigos e ricos, quaes elle via gravados nos livros de usos passados. Oh! grandes e soberbos coches! Como elle gostava de ir esperar o Imperador, nos dias de grande gala, á porta do paço da cidade, para ver chegar o prestito imperial, especialmente o coche de Sua Magestade, vastas proporções, fortes molas, finas e velhas pinturas, quatro ou cinco parelhas guiadas por um cocheiro grave e digno! Outros vinham, menores em grandeza, mas ainda assim tão grandes que enchiam os olhos.

Um desses outros, ou ainda algum menor, podia servir-lhe ás bodas, se toda a sociedade não estivesse já nivellada pelo vulgar coupé. Mas, emfim, iria de coupé; imaginava-o forrado magnificamente, de que? De uma fazenda que não fosse commum, que elle mesmo não distinguia, por ora; mas que daria ao vehiculo o ar que não tinha. Parelha rara. Cocheiro fardado de ouro. Oh! mas de um ouro nunca visto. Convidados de primeira ordem, generaes, diplomatas, senadores, um ou dous ministros, muitas summidades do commercio; e as damas, as grandes damas? Rubião nomeava-as de cabeça; via-as entrar, elle no alto da escada de um palacio, com o olhar perdido por aquelle tapete abaixo,—ellas atravessando o saguão, subindo os degraus com os seus sapatinhos de setim, breves e leves,—a principio, poucas,—depois mais, e mais, e ainda mais. Carruagens após carruagens... Lá vinham os condes de Tal, um varão guapo e uma singular dama... «Caro amigo, aqui estamos», dir-lhe-hia o conde, no alto; e, mais tarde, a condessa: «Senhor Rubião, a festa é esplendida...»

De repente, o internuncio... Sim, esquecera-se que o internuncio devia casal-os; lá estaria elle, com as suas meias roxas de monsenhor, e os grandes olhos napolitanos, em conversação com o ministro da Russia. Os lustres de crystal e ouro allumiando os mais bellos collos da cidade, casacas direitas, outras curvas ouvindo os leques que se abriam e fechavam, dragonas e diademas, a orchestra dando signal para uma valsa. Então os braços negros, em angulo, iam buscar os braços nús, enluvados até o cotovello, e os pares saiam girando pela sala, cinco, sete, dez, doze, vinte pares. Ceia explendida. Crystaes da Bohemia, louça da Hungria, vasos de Sèvres, criadagem lesta e fardada, com as iniciaes do Rubião na gola.


[CAPITULO LXXXII]

Esses sonhos iam e vinham. Que mysterioso Prospero transformava assim uma ilha banal em mascarada sublime? «Vae; Ariel, traze aqui os teus companheiros, para que eu mostre a este joven casal alguns feitiços da minha feitiçaria.» As palavras seriam as mesmas da comedia; a ilha é que era outra, a ilha e a mascarada. Aquella era a propria cabeça do nosso amigo; esta não se compunha de deusas nem de versos, mas de gente humana e prosa de sala. Mais rica era. Não esqueçamos que o Prospero de Shakespeare era um duque de Milão; e, eis ahi, talvez, porque se metteu na ilha do nosso amigo.

Em verdade, as noivas que appareciam ao lado do Rubião, naquelles sonhos de bodas, eram sempre titulares. Os nomes eram os mais sonoros e faceis da nossa nobiliarchia. Eis aqui a explicação: poucas semanas antes, Rubião apanhou um almanack de Laemmert,e, entrando a folheal-o, deu com o capitulo dos titulares. Se elle sabia de alguns, estava longe de os conhecer a todos. Comprou um almanack, e lia-o muitas vezes, deixando escorregar os olhos por alli abaixo, desde os marquezes até os barões, voltava atraz, repetia os nomes bonitos, trazia a muitos de cór. Ás vezes, pegava da penna e de uma folha de papel, escolhia um titulo moderno ou antigo, e escrevia-o repetidamente, como se fosse o proprio dono e assignasse alguma cousa:

Marquez de Barbacena
Marquez de Barbacena
Marquez de Barbacena
Marquez de Barbacena
Marquez de Barbacena
Marquez de Barbacena