Dizendo isto, entregou-me a carta; não fôra aberta. Se estivessemos sós, é possivel que eu lh'a lesse, mas a presença de extranhos impedia-me este recurso. Demais, era desnecessario; a resposta de Maria Cora era definitiva ou me pareceu tal. Peguei na carta, e antes de a guardar commigo:

—Não quer então ler?

—Não.

—Nem para ver os termos?

—Não.

—Imagine que lhe proponho ir combater contra seu marido, matal-o e voltar, disse eu cada vez mais tonto.

—Propõe isto?

—Imagine.

—Não creio que ninguem me ame com tal força, concluiu sorrindo. Olhe, que estão reparando em nós.

Dizendo isto, separou-se de mim, e foi ter com a tia e o poeta. Eu fiquei ainda alguns segundos com o livro na mão, como se devéras o examinasse, e afinal deixei-o. Vim sentar-me defronte della. Os tres conversavam de cousas do Rio Grande, de combates entre federalistas e legalistas, e da varia sorte delles. O que eu então senti não se escreve; pelo menos, não o escrevo eu, que não sou romancista. Foi uma especie de vertigem, um delirio, uma scena pavorosa e lucida, um combate e uma gloria. Imaginei-me no campo, entre uns e outros, combatendo os federalistas, e afinal matando João da Fonseca, voltando e casando-me com a viuva. Maria Cora contribuia para esta visão seductora; agora, que me recusára a carta, parecia-me mais bella que nunca, e a isto accrescia que se não mostrava zangada nem offendida, tratava-me com egual carinho que antes, creio até que maior. Disto podia sair uma impressão dupla e contraria,—uma de acquiescencia tacita, outra de indifferença, mas eu só via a primeira, e sai de lá completamente louco.