—Obrigado. Vamos, Domingos.

Domingos trepou á almofada, o cocheiro tocou os animaes, e o carro seguiu até á rua de S. Christovão, onde morava Cordovil.

Antes de chegar á casa, Cordovil foi pensando na morte do desconhecido. Em si mesma, era boa; comparada á do inimigo pessoal, excellente. Ia a assobiar, cuidando sabe Deus em que delicia passada ou em que esperança futura; revivia o que vivêra, ou antevia o que podia viver, senão quando, a morte pegou da delicia ou da esperança, e lá se foi o homem ao eterno repouso. Morreu sem dôr, ou, se alguma teve, foi acaso brevissima, como um relampago que deixa a escuridão mais escura.

Então poz o caso em si. Se lhe tem acontecido no Cassino a morte do Aterrado? Não seria dançando; os seus quarenta annos não dançavam. Podia até dizer que elle só dançou até aos vinte. Não era dado a moças, tivera uma affeição unica na vida,—aos vinte e cinco annos, casou e enviuvou ao cabo de cinco semanas para não casar mais. Não é que lhe faltassem noivas,—mórmente depois de perder o avô, que lhe deixou duas fazendas. Vendeu-as ambas e passou a viver comsigo, fez duas viagens á Europa, continuou a politica e a sociedade. Ultimamente parecia enojado de uma e de outra, mas não tendo em que matar o tempo, não abriu mão dellas. Chegou a ser ministro uma vez, creio que da marinha, não passou de sete mezes. Nem a pasta lhe deu gloria, nem a demissão desgosto. Não era ambicioso, e mais puxava para a quietação que para o movimento.

Mas se lhe tivesse succedido morrer de repente no Cassino, ante uma valsa ou quadrilha, entre duas portas? Podia ser muito bem. Cordovil compoz de imaginação a scena, elle caido de bruços ou de costas, o prazer turbado, a dança interrompida... e d'ahi podia ser que não; um pouco de espanto apenas, outro de susto, os homens animando as damas, a orchestra continuando por instantes a opposição do compasso e da confusão. Não faltariam braços que o levasse para um gabinete, já morto, totalmente morto.

—Tal qual a morte de Cesar, ia dizendo comsigo.

E logo emendou:

—Não, melhor que ella; sem ameaça, nem armas, nem sangue, uma simples queda e o fim. Não sentiria nada.

Cordovil deu comsigo a rir ou a sorrir, alguma cousa que afastava o terror e deixava a sensação da liberdade. Em verdade, antes a morte assim que após longos dias ou longos mezes e annos, como o adversario que perdêra algumas horas antes. Nem era morrer; era um gesto de chapéo, que se perdia no ar com a propria mão e a alma que lhe déra movimento. Um cochilo e o somno eterno. Achava-lhe um só defeito,—o apparato. Essa morte no meio de um baile, defronte do imperador, ao som de Strauss, contada, pintada, enfeitada nas folhas publicas, essa morte pareceria de encommenda. Paciencia, uma vez que fosse repentina.

Tambem pensou que podia ser na Camara, no dia seguinte, ao começar o debate do orçamento. Tinha a palavra; já andava cheio de algarismos e citações. Não quiz imaginar o caso, não valia a pena; mas o caso teimou e appareceu de si mesmo. O salão da Camara, em vez do Cassino, sem damas ou com poucas, nas tribunas. Vasto silencio. Cordovil em pé começaria o discurso, depois de circular os olhos pela casa, fitar o ministro e fitar o presidente: «Releve-me a Camara que lhe tome algum tempo, serei breve, buscarei ser justo...» Aqui uma nuvem lhe taparia os olhos, a lingua pararia, o coração tambem, e elle cairia de golpe no chão. Camara, galerias, tribunas ficariam assombradas. Muitos deputados correriam a erguel-o; um, que era medico, verificaria a morte; não diria que fôra de repente, como o do sobradinho do Aterrado, mas por outro estylo mais technico. Os trabalhos seriam suspensos, depois de algumas palavras do presidente e escolha da commissão que acompanharia o finado ao cemiterio...