—Que massada! Estou doente.
Maria appareceu no gabinete, bocejando. Disse-me que era só meia hora; tinha dormido mal, doia-lhe a cabeça e contava deitar-se cedo. Sentou-se enfastiada, e começámos a partida. Eu arrependia-me de haver rasgado a carta; lembravam-me alguns trechos della, que diriam bem o meu estado, com o calor necessario a persuadil-a. Se a tenho conservado, entregava-lh'a agora; ella ia muita vez ao patamar da escada despedir-se de mim e fechar a cancella. Nessa occasião podia dar-lh'a; era uma solução da minha crise.
Ao cabo de alguns minutos, X... levantou-se para ir buscar tabaco de uma caixa de folha de Flandres, posta sobre a secretaria. Maria fez então um gesto que não sei como diga nem pinte. Ergueu as cartas á altura dos olhos para os tapar, voltou-os para mim que lhe ficava á esquerda, e arregalou-os tanto e com tal fogo e attracção, que não sei como não entrei por elles. Tudo foi rapido. Quando elle voltou fazendo um cigarro, Maria tinha as cartas embaixo dos olhos, abertas em leque, fitando-as como se calculasse. Eu devia estar tremulo; não obstante, calculava tambem, com a differença de não poder falar. Ella disse então com placidez uma das palavras do jogo, passo ou licença.
Jogámos cerca de uma hora. Maria, para o fim, cochilava literalmente, e foi o proprio X... que lhe disse que era melhor ir descançar. Despedi-me e passei ao corredor, onde tinha o chapéo e a bengala. Maria, á porta da sala, esperava que eu saisse e acompanhou-me até á cancella, para fechal-a. Antes que eu descesse, lançou-me um dos braços ao pescoço, chegou-me a si, collou-me os labios nos labios, onde elles me depositaram um beijo grande, rapido e surdo. Na mão senti alguma cousa.
—Boa noite, disse Maria fechando a cancella.
Não sei como não caí. Desci atordoado, com o beijo na boca, os olhos nos della, e a mão apertando instinctivamente um objecto. Cuidei de me pôr longe. Na primeira rua, corri a um lampião, para ver o que trazia. Era um cartão de loja de fazendas, um annuncio, com isto escripto nas costas, a lapis: «Espere-me amanhã, na ponte das barcas de Nietheroy, a uma hora da tarde.»
O meu alvoroço foi tamanho que durante os primeiros minutos não soube absolutamente o que fiz. Em verdade, as emoções eram demasiado grandes e numerosas, e tão de perto seguidas que eu mal podia saber de mim. Andei até ao largo de S. Francisco de Paula. Tornei a ler o cartão; arrepiei caminho, novamente parei, e uma patrulha que estava perto, talvez desconfiou dos meus gestos. Felizmente, a despeito da commoção, tinha fome e fui cear ao Hotel dos Principes. Não dormi antes da madrugada; ás seis horas estava em pé. A manhã foi lenta como as agonias lentas. Dez minutos antes de uma hora cheguei á ponte; já lá achei Maria, envolvida n'uma capa, e com um veu azul no rosto. Ia sair uma barca, entrámos nella.
O mar acolheu-nos bem. A hora era de poucos passageiros. Havia movimento de lanchas, de aves, e o ceu luminoso parecia cantar a nossa primeira entrevista. O que dissemos foi tão de atropello e confusão que não me ficou mais de meia duzia de palavras, e dellas nenhuma foi o nome de X... ou qualquer referencia a elle. Sentiamos ambos que trahiamos, eu o meu amigo, ella o seu amigo e protector. Mas, ainda que o não sentissemos, não é provavel que falassemos delle, tão pouco era o tempo para o nosso infinito. Maria appareceu-me então como nunca a vi nem suspeitára, falando de mim e de si, com a ternura possivel naquelle logar publico, mas toda a possivel, não menos. As nossas mãos collavam-se, os nossos olhos comiam-se, e os corações batiam provavelmente ao mesmo compasso rapido e rapido. Pelo menos foi a sensação com que me separei della, após a viagem redonda a Nictheroy e S. Domingos. Convidei-a a desembarcar em ambos os pontos, mas recusou; na volta, lembrei-lhe que nos mettessemos n'uma caleça fechada: «Que idéa faria de mim?» perguntou-me com um gesto de pudor que a transfigurou. E despedimo-nos com prazo dado, jurando-lhe que eu não deixaria de ir vel-os, á noite, como de costume.
Como eu não tomei da penna para narrar a minha felicidade, deixo a parte deliciosa da aventura, com as suas entrevistas, cartas e palavras, e mais os sonhos e esperanças, as infinitas saudades e os renascentes desejos. Taes aventuras são como os almanaks, que, com todas as suas mudanças, hão de trazer os mesmos dias e mezes, com os seus eternos nomes e santos. O nosso almanak apenas durou um trimestre, sem quartos minguantes nem occasos de sol. Maria era um modelo de graças finas, toda vida, todo movimento. Era bahiana, como disse, fôra educada no Rio Grande do Sul, na campanha, perto da fronteira. Quando lhe falei do seu primeiro encontro com X... no Theatro Provisorio, dançando ao som de um pandeiro, disse-me que era verdade, fôra alli vestida á castelhana e de mascara; e, como eu lhe pedisse a mesma cousa, menos a mascara, ou um simples lundú nosso, respondeu-me como quem recusa um perigo:
—Você poderia ficar doudo.