—Mas X... não ficou doudo.
—Ainda hoje não está em seu juizo, replicou Maria rindo. Imagina que eu fazia isto só...
E em pé, n'um meneio rapido, deu uma volta ao corpo, que me fez ferver o sangue.
O trimestre acabou depressa, como os trimestres daquella casta. Maria faltou um dia á entrevista. Era tão pontual que fiquei tonto quando vi passar a hora. Cinco, dez, quinze minutos; depois vinte, depois trinta, depois quarenta... Não digo as vezes que andei de um lado para outro, na sala, no corredor, á espreita e á escuta, até que de todo passou a possibilidade de vir. Poupo a noticia do meu desespero, o tempo que rolei no chão, falando, gritando ou chorando. Quando cancei, escrevi-lhe uma longa carta; esperei que me escrevesse tambem, explicando a falta. Não mandei a carta, e á noite fui á casa delles.
Maria poude explicar-me a falta pelo receio de ser vista e acompanhada por alguem que a perseguia desde algum tempo. Com effeito, havia-me já falado em não sei que vizinho que a cortejava com instancia; uma vez disse-me que elle a seguira até á porta da minha casa. Acreditei na razão, e propuz-lhe outro logar de encontro, mas não lhe pareceu conveniente. Desta vez achou melhor suspendermos as nossas entrevistas, até fazer calar as suspeitas. Não sairia de casa. Não comprehendi então que a principal verdade era ter cessado nella o ardor dos primeiros dias. Maria era outra, principalmente outra. E não pódes imaginar o que vinha a ser essa bella creatura, que tinha em si o fogo e o gelo, e era mais quente e mais fria que ninguem.
Quando me entrou a convicção de que tudo estava acabado, resolvi não voltar lá, mas nem por isso perdia a esperança; era para mim questão de esforço. A imaginação, que torna presentes os dias passados, fazia-me crer facilmente na possibilidade de restaurar as primeiras semanas. Ao cabo de cinco dias, voltei: não podia viver sem ella.
X... recebeu-me com o seu grande riso infante, os olhos puros, a mão forte e sincera; perguntou a razão da minha ausencia. Alleguei uma febresinha, e, para explicar o enfadamento que eu não podia vencer, disse que ainda me doia a cabeça. Maria comprehendeu tudo; nem por isso se mostrou meiga ou compassiva, e, á minha saida, não foi até ao corredor, como de costume.
Tudo isto dobrou a minha angustia. A idéa de morrer entrou a passar-me pela cabeça; e, por uma symetria romantica, pensei em metter-me na barca de Nictheroy, que primeiro acolheu os nossos amores, e, no meio da bahia, atirar-me ao mar. Não iniciei tal plano nem outro. Tendo encontrado casualmente o meu amigo Barreto, não vacillei em lhe dizer tudo; precisava de alguem para falar commigo mesmo. No fim pedi-lhe segredo; devia pedir-lhe que especialmente não contasse nada a Raymunda. Nessa mesma noite ella soube tudo. Raymunda era um espirito aventureiro, amigo de entreprezas e novidades. Não se lhe dava, talvez, de mim nem da outra, mas viu naquillo um lance, uma occupação, e cuidou em reconciliar-nos; foi o que eu soube depois, e é o que dá logar a este papel.
Falou-lhe uma e mais vezes. Maria quiz negar a principio, acabou confessando tudo, dizendo-se arrependida da cabeçada que déra. Usaria provavelmente de circumloquios e synonymos, phrases vagas e truncadas, alguma vez empregaria só gestos. O texto que ahi fica é o da propria Raymunda, que me mandou chamar á casa della e me referiu todos os seus esforços, contente de si mesma.
—Mas não perca as esperanças, concluiu; eu disse-lhe que o senhor era capaz de matar-se.