—Tambem não posso. Faço uma cousa; na volta do Paraguay, o terceiro dia é seu.

Creio ainda hoje que o fim desta ultima phrase era indicar que os dous primeiros dias seriam da mãe e de Maria; assim, qualquer suspeita que eu tivesse dos motivos secretos da resolução, devia dissipar-se. Nem bastou isso; disse-me que escolhesse uma prenda em lembrança, um livro, por exemplo. Preferi o seu ultimo retrato, photographado a pedido da mãe, com a farda de capitão de voluntarios. Por dissimulação, quiz que assignasse; elle promptamente escreveu: «Ao seu leal amigo Simão de Castro offerece o capitão de voluntarios da patria X...» O marmore do rosto era mais duro, o olhar mais torvo; passou os dedos pelo bigode, com um gesto convulso, e despedimo-nos.

No sabbado embarcou. Deixou a Maria os recursos necessarios para viver aqui, na Bahia, ou no Rio Grande do Sul; ella preferiu o Rio Grande, e partiu para lá, trez semanas depois, a esperar que elle voltasse da guerra. Não a pude ver antes; fechára-me a porta, como já me havia fechado o rosto e o coração.

Antes de um anno, soube-se que elle morrêra em combate, no qual se houve com mais denodo que pericia. Ouvi contar que primeiro perdêra um braço, e que provavelmente a vergonha de ficar aleijado o fez atirar-se contra as armas inimigas, como quem queria acabar de vez. Esta versão podia ser exacta, porque elle tinha desvanecimento das bellas fórmas; mas a causa foi complexa. Tambem me contaram que Maria, voltando do Rio Grande, morreu em Curytiba; outros dizem que foi acabar em Montevidéo. A filha não passou dos quinze annos.

Eu cá fiquei entre os meus remorsos e saudades; depois, só remorsos; agora admiração apenas, uma admiração particular, que não é grande senão por me fazer sentir pequeno. Sim, eu não era capaz de praticar o que elle praticou. Nem effectivamente conheci ninguem que se parecesse com X... E porque teimar nesta letra? Chamemol-o pelo nome que lhe deram na pia, Emilio, o meigo, o forte, o simples Emilio.

Suje-se gordo!

Uma noite, ha muitos annos, passeava eu com um amigo no terraço do theatro de S. Pedro de Alcantara. Era entre o segundo e o terceiro acto da peça A sentença ou o tribunal do jury. Só me ficou o titulo, e foi justamente o titulo que nos levou a falar da instituição e de um facto que nunca mais me esqueceu.

Fui sempre contrario ao jury,—disse-me aquelle amigo,—não pela instituição em si, que é liberal, mas porque me repugna condemnar alguem, e por aquelle preceito do Evangelho: «Não queiraes julgar para que não sejais julgados.» Não obstante, servi duas vezes. O tribunal era então no antigo Aljube, fim da rua dos Ourives, principio da ladeira da Conceição.

Tal era o meu escrupulo que, salvo dous, absolvi todos os réos. Com effeito, os crimes não me pareceram provados; um ou dous processos eram muito mal feitos. O primeiro réo que condemnei, era um moço limpo, accusado de haver furtado certa quantia, não grande, antes pequena, com falsificação de um papel. Não negou o facto, nem podia fazel-o, contestou que lhe coubesse a iniciativa ou inspiração do crime. Alguem, que não citava, foi que lhe lembrou esse modo de acudir a uma necessidade urgente; mas Deus, que via os corações, daria ao criminoso verdadeiro o merecido castigo. Disse isso sem emphase, triste, a palavra surda, os olhos mortos, com tal pallidez que mettia pena; o promotor publico achou nessa mesma côr do gesto a confissão do crime. Ao contrario, o defensor mostrou que o abatimento e a pallidez significavam a lastima da innocencia calumniada.

Poucas vezes terei assistido a debate tão brilhante. O discurso do promotor foi curto, mas forte, indignado, com um tom que parecia odio, e não era. A defeza, além do talento do advogado, tinha a circumstancia de ser a estréa delle na tribuna. Parentes, collegas e amigos esperavam o primeiro discurso do rapaz, e não perderam na espera. O discurso foi admiravel, e teria salvo o réo, se elle pudesse ser salvo, mas o crime mettia-se pelos olhos dentro. O advogado morreu dous annos depois, em 1865. Quem sabe o que se perdeu nelle! Eu, acredite, quando vejo morrer um moço de talento, sinto mais que quando morre um velho... Mas vamos ao que ia contando. Houve réplica do promotor e tréplica do defensor. O presidente do tribunal resumiu os debates, e, lidos os quesitos, foram entregues ao presidente do conselho, que era eu.