Não digo o que se passou na sala secreta; além de ser secreto o que lá se passou, não interessa ao caso particular, que era melhor ficasse tambem calado, confesso. Contarei depressa; o terceiro acto não tarda.

Um dos jurados do conselho, cheio de corpo e ruivo, parecia mais que ninguem convencido do delicto e do delinquente. O processo foi examinado, os quesitos lidos, e as respostas dadas (onze votos contra um); só o jurado ruivo estava inquieto. No fim, como os votos assegurassem a condemnação, ficou satisfeito, disse que seria um acto de fraqueza, ou cousa peior, a absolvição que lhe déssemos. Um dos jurados, certamente o que votára pela negativa,—proferiu algumas palavras de defeza do moço. O ruivo,—chamava-se Lopes,—replicou com aborrecimento:

—Como, senhor? Mas o crime do réo está mais que provado.

—Deixemos de debate, disse eu, e todos concordaram commigo.

—Não estou debatendo, estou defendendo o meu voto, continuou Lopes. O crime está mais que provado. O sujeito nega, porque todo o réo nega, mas o certo é que elle commetteu a falsidade, e que falsidade! Tudo por uma miseria, duzentos mil reis! Suje-se gordo! Quer sujar-se? Suje-se gordo!

«Suje-se gordo!» Confesso-lhe que fiquei de boca aberta, não que entendesse a phrase, ao contrario; nem a entendi nem a achei limpa, e foi por isso mesmo que fiquei de boca aberta. Afinal caminhei e bati á porta, abriram-nos, fui á mesa do juiz, dei as respostas do conselho e o réu saiu condemnado. O advogado appellou; se a sentença foi confirmada ou a appellação acceita, não sei; perdi o negocio de vista.

Quando sai do tribunal, vim pensando na phrase do Lopes, e pareceu-me entendel-a. «Suje-se gordo!» era como se dissesse que o condemnado era mais que ladrão, era um ladrão reles, um ladrão de nada. Achei esta explicação na esquina da rua de S. Pedro; vinha ainda pela dos Ourives. Cheguei a desandar um pouco, a ver se descobria o Lopes para lhe apertar a mão; nem sombra de Lopes. No dia seguinte, lendo nos jornaes os nossos nomes, dei com o nome todo delle; não valia a pena procural-o, nem me ficou de cór. Assim são as paginas da vida, como dizia meu filho quando fazia versos, e accrescentava que as paginas vão passando umas sobre outras, esquecidas apenas lidas. Rimava assim, mas não me lembra a fórma dos versos.

Em prosa disse-me elle, muito tempo depois, que eu não devia faltar ao jury, para o qual acabava de ser designado. Respondi-lhe que não compareceria, e citei o preceito evangelico; elle teimou, dizendo ser um dever de cidadão, um serviço gratuito, que ninguem que se prezasse podia negar ao seu paiz. Fui e julguei tres processos.

Um destes era de um empregado do Banco do Trabalho Honrado, o caixa, accusado de um desvio de dinheiro. Ouvira falar no caso, que os jornaes deram sem grande minucia, e aliás eu lia pouco as noticias de crimes. O accusado appareceu e foi sentar-se no famoso banco dos réos. Era um homem magro e ruivo. Fitei-o bem, e estremeci; pareceu-me ver o meu collega daquelle julgamento de annos antes. Não poderia reconhecel-o logo por estar agora magro, mas era a mesma côr dos cabellos e das barbas, o mesmo ar, e por fim a mesma voz e o mesmo nome: Lopes.

—Como se chama? perguntou o presidente.