—Antonio do Carmo Ribeiro Lopes.

Já me não lembravam os tres primeiros nomes, o quarto era o mesmo, e os outros signaes vieram confirmando as reminiscencias; não me tardou reconhecer a pessoa exacta daquelle dia remoto. Digo-lhe aqui com verdade que todas essas circumstancias me impediram de acompanhar attentamente o interrogatorio, e muitas cousas me escaparam. Quando me dispuz a ouvil-o bem, estava quasi no fim. Lopes negava com firmeza tudo o que lhe era perguntado, ou respondia de maneira que trazia uma complicação ao processo. Circulava os olhos sem medo nem anciedade; não sei até se com uma pontinha de riso nos cantos da boca.

Seguiu-se a leitura do processo. Era uma falsidade e um desvio de cento e dez contos de reis. Não lhe digo como se descobriu o crime nem o criminoso, por já ser tarde; a orchestra está afinando os instrumentos. O que lhe digo com certeza é que a leitura dos autos me impressionou muito, o inquerito, os documentos, a tentativa de fuga do caixa e uma serie de circumstancias aggravantes; por fim o depoimento das testemunhas. Eu ouvia ler ou falar e olhava para o Lopes. Tambem elle ouvia, mas com o rosto alto, mirando o escrivão, o presidente, o tecto e as pessoas que o iam julgar; entre ellas eu. Quando olhou para mim, não me reconheceu; fitou-me algum tempo e sorriu, como fazia aos outros.

Todos esses gestos do homem serviram á accusação e á defeza, tal como serviram, tempos antes, os gestos contrarios do outro accusado. O promotor achou nelles a revelação clara do cynismo, o advogado mostrou que só a innocencia e a certeza da absolvição podiam trazer aquella paz de espirito.

Emquanto os dous oradores falavam, vim pensando na fatalidade de estar alli, no mesmo banco do outro, este homem que votára a condemnação delle, e naturalmente repeti commigo o texto evangelico: «Não queiraes julgar, para que não sejaes julgados.» Confesso-lhe que mais de uma vez me senti frio. Não é que eu mesmo viesse a commetter algum desvio de dinheiro, mas podia, em occasião de raiva, matar alguem ou ser calumniado de desfalque. Aquelle que julgava outr'ora, era agora julgado tambem.

Ao pé da palavra biblica lembrou-me de repente a do mesmo Lopes: «Suje-se gordo!» Não imagina o sacudimento que me deu esta lembrança. Evoquei tudo o que contei agora, o discursinho que lhe ouvi na sala secreta, até áquellas palavras: «Suje-se gordo!» Vi que não era um ladrão réles, um ladrão de nada, sim de grande valor. O verbo é que definia duramente a acção: «Suje-se gordo!» Queria dizer que o homem não se devia levar a um acto daquella especie sem a grossura da somma. A ninguem cabia sujar-se por quatro patacas. Quer sujar-se? Suje-se gordo!

Idéas e palavras iam assim rolando na minha cabeça, sem eu dar pelo resumo dos debates que o presidente do tribunal fazia. Tinha acabado, leu os quesitos e recolhemo-nos á sala secreta. Posso dizer-lhe aqui em particular que votei affirmativamente, tão certo me pareceu o desvio dos cento e dez contos. Havia, entre outros documentos, uma carta de Lopes que fazia evidente o crime. Mas parece que nem todos leram com os mesmos olhos que eu. Votaram commigo dous jurados. Nove negaram a criminalidade do Lopes, a sentença de absolvição foi lavrada e lida, e o accusado saiu para a rua. A differença da votação era tamanha que cheguei a duvidar commigo se teria acertado. Podia ser que não. Agora mesmo sinto uns repellões de consciencia. Felizmente, se o Lopes não commetteu devéras o crime, não recebeu a pena do meu voto, e esta consideração acaba por me consolar do erro, mas os repellões voltam. O melhor de tudo é não julgar ninguem para não vir a ser julgado. Suje-se gordo! suje-se magro! suje-se como lhe parecer! o mais seguro é não julgar ninguem... Acabou a musica, vamos para as nossas cadeiras.

Umas férias

Vieram dizer ao mestre-escola que alguem lhe queria falar.

—Quem é?