—Diz que meu senhor não o conhece, respondeu o preto.
—Que entre.
Houve um movimento geral de cabeças na direcção da porta do corredor, por onde devia entrar a pessoa desconhecida. Eramos não sei quantos meninos na escola. Não tardou que apparecesse uma figura rude, tez queimada, cabellos compridos, sem signal de pente, a roupa amarrotada, não me lembra bem a côr nem a fazenda, mas provavelmente era brim pardo. Todos ficaram esperando o que vinha dizer o homem, eu mais que ninguem, porque elle era meu tio, roceiro, morador em Guaratiba. Chamava-se tio Zéca.
Tio Zéca foi ao mestre e falou-lhe baixo. O mestre fêl-o sentar, olhou para mim, e creio que lhe perguntou alguma cousa, porque tio Zéca entrou a falar demorado, muito explicativo. O mestre insistiu, elle respondeu, até que o mestre, voltando-se para mim, disse alto:
—Sr. José Martins, póde sair.
A minha sensação de prazer foi tal que venceu a de espanto. Tinha dez annos apenas, gostava de folgar, não gostava de aprender. Um chamado de casa, o proprio tio, irmão de meu pae, que chegára na vespera de Guaratiba, era naturalmente alguma festa, passeio, qualquer cousa. Corri a buscar o chapéo, metti o livro de leitura no bolso e desci as escadas da escola, um sobradinho da rua do Senado. No corredor beijei a mão a tio Zéca. Na rua fui andando ao pé delle, amiudando os passos, e levantando a cara. Elle não me dizia nada, eu não me atrevia a nenhuma pergunta. Pouco depois chegavamos ao collegio de minha irmã Felicia; disse-me que esperasse, entrou, subiu, desceram, e fomos os tres caminho de casa. A minha alegria agora era maior. Certamente havia festa em casa, pois que iamos os dous, ella e eu; iamos na frente, trocando as nossas perguntas e conjecturas. Talvez annos de tio Zéca. Voltei a cara para elle; vinha com os olhos no chão, provavelmente para não cair.
Fomos andando. Felicia era mais velha que eu um anno. Calçava sapato raso, atado ao peito do pé por duas fitas cruzadas, vindo acabar acima do tornozello com laço. Eu, botins de cordavão, já gastos. As calcinhas della pegavam com a fita dos sapatos, as minhas calças, largas, caíam sobre o peito do pé; eram de chita. Uma ou outra vez paravamos, ella para admirar as bonecas á porta dos armarinhos, eu para ver, á porta das vendas, algum papagaio que descia e subia pela corrente de ferro atada ao pé. Geralmente, era meu conhecido, mas papagaio não cança em tal edade. Tio Zéca é que nos tirava do espectaculo industrial ou natural. Andem, dizia elle em voz sumida. E nós andavamos, até que outra curiosidade nos fazia deter o passo. Entretanto, o principal era a festa que nos esperava em casa.
—Não creio que sejam annos de tio Zéca, disse-me Felicia.
—Porqué?
—Parece meio triste.