—Triste, não, parece carrancudo.

—Ou carrancudo. Quem faz annos tem a cara alegre.

—Então serão annos de meu padrinho...

—Ou de minha madrinha...

—Mas porque é que mamãe nos mandou para a escola?

—Talvez não soubesse.

—Ha de haver jantar grande...

—Com doce...

—Talvez dancemos.

Fizemos um accordo: podia ser festa, sem anniversario de ninguem. A sorte grande, por exemplo. Occorreu-me tambem que podiam ser eleições. Meu padrinho era candidato a vereador; embora eu não soubesse bem o que era candidatura nem vereação, tanto ouvira falar em victoria proxima que a achei certa e ganha. Não sabia que a eleição era ao domingo, e o dia era sexta-feira. Imaginei bandas de musica, vivas e palmas, e nós, meninos, pulando, rindo, comendo cocadas. Talvez houvesse espectaculo á noite; fiquei meio tonto. Tinha ido uma vez ao theatro, e voltei dormindo, mas no dia seguinte estava tão contente que morria por lá tornar, posto não houvesse entendido nada do que ouvira. Vira muita cousa, isso sim, cadeiras ricas, thronos, lanças compridas, scenas que mudavam á vista, passando de uma sala a um bosque, e do bosque a uma rua. Depois, os personagens, todos principes. Era assim que chamavamos aos que vestiam calção de seda, sapato de fivella ou botas, espada, capa de velludo, gorra com pluma. Tambem houve bailado. As bailarinas e os bailarinos falavam com os pés e as mãos, trocando de posição e um sorriso constante na boca. Depois os gritos do publico e as palmas...