Posto que abastado, moço, amigo do seu unico amigo, não se póde dizer que Quintanilha fosse inteiramente feliz, como vaes ver. Ponho de lado o desgosto que lhe trouxe a herança com o odio dos parentes; tal odio foi que elle esteve prestes a abrir mão d'ella, e não o fez porque o amigo Gonçalves, que lhe dava idéas e conselhos, o convenceu de que similhante acto seria rematada loucura.
—Que culpa tem você que merecesse mais a seu tio que os outros parentes? Não foi você que fez o testamento nem andou a bajular o defunto, como os outros. Se elle deixou tudo a você, é que o achou melhor que elles; fique-se com a fortuna, que é a vontade do morto, e não seja tolo.
Quintanilha acabou concordando. Dos parentes alguns buscaram reconciliar-se com elle, mas o amigo mostrou-lhe a intenção recondita dos taes, e Quintanilha não lhes abriu a porta. Um d'esses, ao vê-lo ligado com o antigo companheiro de estudos, bradava por toda a parte:
— Ahi está, deixa os parentes para se metter com extranhos; ha de ver o fim que leva.
Ao saber d'isto, Quintanilha correu a contal-o a Gonçalves, indignado. Gonçalves sorriu, chamou-lhe tolo e aquietou-lhe o animo; não valia a pena irritar-se por ditinhos.
— Uma só cousa desejo, continuou, é que nos separemos, para que se não diga...
—Que se não diga o quê? É boa! Tinha que vêr, se eu passava a escolher as minhas amizades conforme o capricho de alguns peraltas sem vergonha!
— Não fale assim, Quintanilha. Você é grosseiro com seus parentes.
— Parentes do diabo que os leve! Pois eu hei de viver com as pessoas que me fôrem designadas por meia duzia de velhacos que o que querem é comer-me o dinheiro? Não, Gonçalves; tudo o que você quizer, menos isso. Quem escolhe os meus amigos sou eu, é o meu coração. Ou você está... está aborrecido de mim?
— Eu? Tinha graça.