— Pois então?

— Mas é...

— Não é tal!

A vida que viviam os dous, era a mais unida d'este mundo. Quintanilha accordava, pensava no outro, almoçava e ia ter com elle. Jantavam juntos, faziam alguma visita, passeavam ou acabavam a noite no theatro. Se Gonçalves tinha algum trabalho que fazer á noite, Quintanilha ia ajudal-o como obrigação; dava busca aos textos de lei, marcava-os, copiava-os, carregava os livros. Gonçalves esquecia com facilidade, ora um recado, ora uma carta, sapatos, charutos, papeis. Quintanilha suppria-lhe a memoria. Ás vezes, na rua do Ouvidor, vendo passar as moças, Gonçalves lembrava-se de uns autos que deixára no escriptorio. Quintanilha voava a buscal-os e tornava com elles, tão contente que não se podia saber se eram autos, se a sorte grande; procurava-o anciosamente com os olhos, corria, sorria, morria de fadiga.

— São estes?

— São; deixa ver, são estes mesmos. Dá cá.

— Deixa, eu levo.

A principio, Gonçalves suspirava:

—Que massada que dei a você!

Quintanilha ria do suspiro com tão bom humor que o outro, para não o molestar, não se accusou de mais nada; concordou em receber os obsequios. Com o tempo, os obsequios ficaram sendo puro officio. Gonçalves dizia ao outro: «Você hoje ha de lembrar-me isto e aquillo.» E o outro decorava as recommendações, ou escrevia-as, se eram muitas. Algumas dependiam de horas; era de ver como o bom Quintanilha suspirava afflicto, á espera que chegasse tal ou tal hora para ter o gosto de lembrar os negocios ao amigo. E levava-lhe as cartas e papeis, ia buscar as respostas, procurar as pessoas, esperal-as na estrada de ferro, fazia viagens ao interior. De si mesmo descobria-lhe bons charutos, bons jantares, bons espectaculos. Gonçalves já não tinha liberdade de falar de um livro novo, ou sómente caro, que não achasse um exemplar em casa.