— Você é um perdulario, dizia-lhe em tom reprehensivo.
— Então gastar com letras e sciencias é botar fóra? É boa! concluia o outro.
No fim do anno quiz obrigal-o a passar fóra as férias. Gonçalves acabou acceitando, e o prazer que lhe deu com isto foi enorme. Subiram a Petropolis. Na volta, serra abaixo, como falassem de pintura, Quintanilha advertiu que não tinham ainda uma tela com o retrato dos dous, e mandou fazel-a. Quando a levou ao amigo, este não poude deixar de lhe dizer que não prestava para nada. Quintanilha ficou sem voz.
— É uma porcaria, insistiu Gonçalves.
— Pois o pintor disse-me...
— Você não entende de pintura, Quintanilha, e o pintor aproveitou a occasião para metter a espiga. Pois isto é cara decente? Eu tenho este braço torto?
— Que ladrão!
— Não, elle não tem culpa, fez o seu negocio; você é que não tem o sentimento da arte, nem pratica, e espichou-se redondamente. A intenção foi boa, creio...
— Sim, a intenção foi boa.
— E aposto que já pagou?