— Muito mal.
Quintanilha tornou a piscar o olho ao primo, e ponderou á moça que a prova de tocar bem ou mal só se dava ao piano. Quanto ao prazo, era certo que apenas passára um mez; todavia era tambem certo que a musica era uma distracção natural e elevada. Além d'isso, bastava tocar um pedaço triste. João Bastos approvou este modo de ver e lembrou uma composição elegiaca. Camilla abanou a cabeça.
— Não, não, sempre é tocar piano; os vizinhos são capazes de inventar que eu toquei uma polka.
Quintanilha achou graça e riu. Depois concordou e esperou que os tres mezes fossem passados. Até lá, viu a prima algumas vezes, sendo as tres ultimas visitas mais proximas e longas. Emfim, poude ouvil-a tocar piano, e gostou. O pae confessou que, ao principio, não gostava muito d'aquellas musicas allemãs; com o tempo e o costume achou-lhes sabor. Chamava á filha «a minha allemãsinha», appellido que foi adoptado por Quintanilha, apenas modificado para o plural: «a nossa allemãsinha». Pronomes possessivos dão intimidade; dentro em pouco, ella existia entre os tres,—ou quatro, se contarmos Gonçalves, que alli foi apresentado pelo amigo; — mas fiquemos nos tres.
Que elle é cousa já farejada por ti, leitor sagaz. Quintanilha acabou gostando da moça. Como não, se Camilla tinha uns longos olhos mortaes? Não é que os pousasse muita vez nelle, e, se o fazia, era com tal ou qual constrangimento, a principio, como as creanças que obedecem sem vontade ás ordens do mestre ou do pae; mas pousava-os, e elles eram taes que, ainda sem intenção, feriam de morte. Tambem sorria com frequencia e falava com graça. Ao piano, e por mais aborrecida que tocasse, tocava bem. Em summa, Camilla não faria obra de impulso proprio, sem ser por isso menos feiticeira. Quintanilha descobriu um dia de manhã que sonhára com ella a noite toda, e á noite que pensára nella todo o dia, e concluiu da descoberta que a amava e era amado. Tão tonto ficou que esteve prestes a imprimil-o nas folhas publicas. Quando menos, quiz dizel-o ao amigo Gonçalves e correu ao escriptorio d'este. A affeição de Quintanilha complicava-se de respeito e temor. Quasi a abrir a boca, engoliu outra vez o segredo. Não ousou dizel-o nesse dia nem no outro.
Antes dissesse; talvez fosse tempo de vencer a campanha. Adiou a revelação por uma semana. Um dia foi jantar com o amigo, e, depois de muitas hesitações, disse-lhe tudo; amava a prima e era amado.
— Você approva, Gonçalves?
Gonçalves empallideceu,—ou, pelo menos, ficou serio; nelle a seriedade confundia-se com a pallidez. Mas, não; verdadeiramente ficou pallido.
— Approva? repetiu Quintanilha.
Após alguns segundos, Gonçalves ia abrir a bocca para responder, mas fechou-a de novo, e fitou os olhos «em hontem», como elle mesmo dizia de si, quando os estendia ao longe. Em vão Quintanilha teimou em saber o que era, o que pensava, se aquelle amor era asneira. Estava tão acostumado a ouvir-lhe este vocabulo que já lhe não doia nem affrontava, ainda em materia tão melindrosa e pessoal. Gonçalves tornou a si d'aquella meditação, sacudiu os hombros, com ar desenganado, e murmurou esta palavra tão surdamente que o outro mal a poude ouvir: