— Não me pergunte nada; faça o que quizer.

— Gonçalves, que é isso? perguntou Quintanilha, pegando-lhe nas mãos, assustado.

Gonçalves soltou um grande suspiro, que, se tinha azas, ainda agora estará voando. Tal foi, sem esta fórma paradoxal, a impressão de Quintanilha. O relogio da sala de jantar bateu oito horas, Gonçalves allegou que ia visitar um desembargador, e o outro despediu-se.

Na rua, Quintanilha parou atordoado. Não acabava de entender aquelles gestos, aquelle suspiro, aquella pallidez, todo o effeito mysterioso da noticia dos seus amores. Entrára e falára, disposto a ouvir do outro um ou mais d'aquelles epithetos costumados e amigos, idiota, credulo, paspalhão, e não ouviu nenhum. Ao contrario, havia nos gestos de Gonçalves alguma cousa que pegava com o respeito. Não se lembrava de nada, ao jantar, que pudesse tel-o offendido; foi só depois de lhe confiar o sentimento novo que trazia a respeito da prima que o amigo ficou acabrunhado.

— Mas, não póde ser, pensava elle; o que é que Camilla tem que não possa ser boa esposa?

Nisto gastou, parado, defronte da casa, mais de meia hora. Advertiu então que Gonçalves não saira. Esperou mais meia hora, nada. Quiz entrar outra vez, abraçal-o, interrogal-o... Não teve forças; enfiou pela rua fóra, desesperado. Chegou á casa de João Bastos, e não viu Camilla; tinha-se recolhido, constipada. Queria justamente contar-lhe tudo, e aqui é preciso explicar que elle ainda não se havia declarado á prima. Os olhares da moça não fugiam dos seus; era tudo, e podia não passar de faceirice. Mas o lance não podia ser melhor para clarear a situação. Contando o que se passára com o amigo, tinha o ensejo de lhe fazer saber que a amava e ia pedil-a ao pae. Era uma consolação no meio d'aquella agonia, o acaso negou-lh'a, e Quintanilha saiu da casa, peior do que entrára. Recolheu-se á sua.

Não dormiu antes das duas horas da manhã, e não foi para repouso, senão para agitação maior e nova. Sonhou que ia a atravessar uma ponte velha e longa, entre duas montanhas, e a meio caminho viu surdir debaixo um vulto e fincar os pés defronte d'elle. Era Gonçalves. «Infame, disse este com os olhos accesos, porque me vens tirar a noiva de meu coração, a mulher que eu amo e é minha? Toma, toma logo o meu coração, é mais completo.» E com um gesto rapido abriu o peito, arrancou o coração e metteu-lh'o na bocca. Quintanilha tentou pegar da viscera amiga e repol-a no peito de Gonçalves; foi impossivel. Os queixos acabaram por fechal-a. Quiz cuspil-a, e foi peior; os dentes cravaram-se no coração. Quiz falar, mas vá alguem falar com a bocca cheia d'aquella maneira. Afinal o amigo ergueu os braços e estendeu-lhe as mãos com o gesto de maldição que elle vira nos melodramas, em dias de rapaz; logo depois, brotaram-lhe dos olhos duas immensas lagrimas, que encheram o valle de agua, atirou-se abaixo e desappareceu. Quintanilha accordou suffocado.

A illusão do pesadelo era tal que elle ainda levou as mãos á bocca, para arrancar de lá o coração do amigo. Achou a lingua sómente, esfregou os olhos e sentou-se. Onde estava? Que era? E a ponte? E o Gonçalves? Voltou a si de todo, comprehendeu e novamente se deitou, para outra insomnia, menor que a primeira, é certo; veiu a dormir ás quatro horas.

De dia, rememorando toda a vespera, realidade e sonho, chegou á conclusão de que o amigo Gonçalves era seu rival, amava a prima d'elle, era talvez amado por ella... Sim, sim, podia ser. Quintanilha passou duas horas crueis. Afinal pegou em si e foi ao escriptorio de Gonçalves, para saber tudo de uma vez; e, se fosse verdade, sim, se fosse verdade...

Gonçalves redigia umas razões de embargo. Interrompeu-as para fital-o um instante, erguer-se, abrir o armario de ferro, onde guardava os papeis graves, tirar de lá o testamento de Quintanilha, e entregal-o ao testador.