— Que é isto?
— Você vae mudar de estado, respondeu Gonçalves, sentando-se á mesa.
Quintanilha sentiu-lhe lagrimas na voz; assim lhe pareceu, ao menos. Pediu-lhe que guardasse o testamento; era o seu depositario natural. Instou muito; só lhe respondia o som aspero da penna correndo no papel. Não corria bem a penna, a letra era tremida, as emendas mais numerosas que de costume, provavelmente as datas erradas. A consulta dos livros era feita com tal melancolia que entristecia o outro. Ás vezes, parava tudo, penna e consulta, para só ficar o olhar fito «em hontem».
— Entendo, disse Quintanilha subitamente; ella será tua.
— Ella quem? quiz perguntar Gonçalves, mas já o amigo voava, escada abaixo, como uma flecha, e elle continuou as suas razões de embargo.
Não se adivinha todo o resto; basta saber o final. Nem se adivinha nem se crê; mas a alma humana é capaz de esforços grandes, no bem como no mal. Quintanilha fez outro testamento, legando tudo á prima, com a condição de desposar o amigo. Camilla não acceitou o testamento, mas ficou tão contente, quando o primo lhe falou das lagrimas de Gonçalves, que acceitou Gonçalves e as lagrimas. Então Quintanilha não achou melhor remedio que fazer terceiro testamento legando tudo ao amigo.
O final da historia foi dito em latim. Quintanilha serviu de testemunha ao noivo, e de padrinho aos dous primeiros filhos. Um dia em que, levando doces para os afilhados, atravessava a praça Quinze de Novembro, recebeu uma bala revoltosa (1893) que o matou quasi instantaneamente. Está enterrado no cemiterio de S. João Baptista; a sepultura é simples, a pedra tem um epitaphio que termina com esta pia phrase: «Orae por elle!» É tambem o fecho da minha historia. Orestes vive ainda, sem os remorsos do modelo grego. Pylades é agora o personagem mudo de Sophocles. Orae por elle!
Anecdota do cabriolet
—Cabriolet está ahi, sim, senhor, dizia o preto que viera á matriz de S. José chamar o vigario para sacramentar dous moribundos.
A geração de hoje não viu a entrada e a saida do cabriolet no Rio de Janeiro. Tambem não saberá do tempo em que o cab e o tilbury vieram para o rol dos nossos vehiculos de praça ou particulares. O cab durou pouco. O tilbury, anterior aos dous, promette ir á destruição da cidade. Quando esta acabar e entrarem os cavadores de ruinas, achar-se-ha um parado, com o cavallo e o cocheiro em ossos, esperando o freguez do costume. A paciencia será a mesma de hoje, por mais que chova, a melancolia maior, como quer que brilhe o sol, porque juntará a propria actual á do espectro dos tempos. O archeologo dirá cousas raras sobre os tres esqueletos. O cabriolet não teve historia; deixou apenas a anecdota que vou dizer.