—Dous! exclamou o sacristão.

—Sim, senhor, dous: nhã Annunciada e nhô Pedrinho. Coitado de nhô Pedrinho! E nhã Annunciada, coitada! continuou o preto a gemer, andando de um lado para outro, afflicto, fóra de si.

Alguem que leia isto com a alma turva de duvidas, é natural que pergunte se o preto sentia devéras, ou se queria picar a curiosidade do coadjuctor e do sacristão. Eu estou que tudo se póde combinar neste mundo, como no outro. Creio que elle sentia devéras: não descreio que anciasse por dizer alguma historia terrivel. Em todo caso, nem o coadjuctor nem o sacristão lhe perguntavam nada.

Não é que o sacristão não fosse curioso. Em verdade, pouco mais era que isso. Trazia a parochia de cór; sabia os nomes ás devotas, a vida dellas, a dos maridos e a dos paes, as prendas e os recursos de cada uma, e o que comiam, e o que bebiam, e o que diziam, os vestidos e as virtudes, os dotes das solteiras, o comportamento das casadas, as saudades das viuvas. Pesquizava tudo; nos intervallos ajudava a missa e o resto. Chamava-se João das Mercês, homem quarentão, pouca barba e grisalho, magro e meão.

—Que Pedrinho e que Annunciada serão esses? dizia comsigo, acompanhando o coadjuctor.

Embora ardesse por sabel-os, a presença do coadjuctor impediria qualquer pergunta. Este ia tão calado e pio, caminhando para a porta da egreja, que era força mostrar o mesmo silencio e piedade que elle. Assim foram andando. O cabriolet esperava-os; o cocheiro desbarretou-se, os vizinhos e alguns passantes ajoelharam-se, emquanto o padre e o sacristão entravam e o vehiculo enfiava pela rua da Misericordia. O preto desandou o caminho a passo largo.

Que andem burros e pessoas na rua, e as nuvens no ceu, se as ha, e os pensamentos nas cabeças, se os tem. A do sacristão tinha-os varios e confusos. Não era ácerca de Nosso-Pae, embora soubesse adoral-o, nem da agua benta e do hyssope que levava; tambem não era ácerca da hora,—oito e quarto da noite,—aliás, o ceu estava claro e a lua ia apparecendo. O proprio cabriolet, que era novo na terra, e substituia neste caso a sege, esse mesmo vehiculo não occupava o cerebro todo de João das Mercês, a não ser na parte que pegava com nhô Pedrinho e nhâ Annunciada.

—Ha de ser gente nova, ia pensando o sacristão, mas hóspeda em alguma casa, de certo, porque não ha casa vasia na praia, e o numero é da do commendador Brito. Parentes, serão? Que parentes, se nunca ouvi...? Amigos, não sei; conhecidos, talvez, simples conhecidos. Mas então mandariam cabriolet? Este mesmo preto é novo na casa; ha de ser escravo de um dos moribundos, ou de ambos.

Era assim que João das Mercês ia cogitando, e não foi por muito tempo. O cabriolet parou á porta de um sobrado, justamente a casa do commendador Brito, José Martins de Brito. Já havia algumas pessoas em baixo com velas, o padre e o sacristão apearam-se e subiram a escada, acompanhados do commendador. A esposa deste, no patamar, beijou o annel ao padre. Gente grande, creanças, escravos, um borborinho surdo, meia claridade, e os dous moribundos á espera, cada um no seu quarto, ao fundo.

Tudo se passou, como é de uso e regra, em taes occasiões. Nhô Pedrinho foi absolvido e ungido, nhâ Annunciada tambem, e o coadjuctor despediu-se da casa para tornar á matriz com o sacristão. Este não se despediu do commendador sem lhe perguntar ao ouvido se os dous eram parentes seus. Não, não eram parentes, respondeu Brito; eram amigos de um sobrinho que vivia em Campinas; uma historia terrivel... Os olhos de João das Mercês escutaram arregaladamente estas duas palavras, e disseram, sem falar, que viriam ouvir o resto,—talvez naquella mesma noite. Tudo foi rapido, porque o padre descia a escada, era força ir com elle.