E desde já ficam as duas obras juntas. Uma responderá pela outra. Nem V. Ex., nem os seus successores consentirão que se destrua este abrigo de folhas verdes, ou se arranque daqui este monumento de arte. Se alguem propuzer arrazar um e mudar outro, para trazer utilidade ao terreno, por meio de uma avenida ou cousa equivalente, o Prefeito recusará a concessão, dizendo que este jardim, conservado por diversos regimens, está agora consagrado pela poesia, que é um regimen só, universal, commum e perpetuo. Tambem póde declarar que a veneração dos seus grandes homens é uma virtude das cidades. E isto farão os Prefeitos de todos os partidos, sem aggravo do seu proprio, porque o poeta que ora celebramos, fiel á vocação, não teve outro partido que o de cantar maravilhosamente.
Demais, se o caso fôr de utilidade, V. Ex. e os seus successores acharão aqui o mais util remedio ás agruras administrativas. Este busto consolará do trabalho acerbo e ingrato; elle dirá que ha tambem uma prefeitura do espirito, cujo exercicio não pede mais que o mudo bronze e a capacidade de ser ouvido no seu eterno silencio. E repetirá a todos o nome de V. Ex., que o recebeu e o dos outros que porventura vierem contemplal-o. Tambem aqui vinha, ha muitos annos, desenfadar-se da vespera, sem outro encargo nem magistratura que os seus livros, o autor de Iracema. Se já estivesse aqui este busto, elle se consolaria da vida com a memoria, e do tempo com a perennidade. Mas então só existiam as arvores. Bernardelli, que tinha de fundir o bronze de ambos, não povoára ainda as nossas praças com outras obras de artista illustre. Olavo Bilac, que promoveu a subscripção de senhoras a que se deve esta obra, não afinára ainda pela lyra de Gonçalves Dias a sua lyra deliciosa.
Aqui fica entregue o monumento a V. Ex., Sr. Prefeito, aqui onde elle deve estar, como outro exemplo da nossa unidade, ligando a patria inteira no mesmo ponto em que a historia, melhor que leis, poz a cabeça da nação, perto daquelle gigante de pedra que o grande poeta cantou em versos masculos.
UM LIVRO
Aqui está um livro que ha de ser relido com apreço, com interesse, não raro com admiração. O autor que occupa logar eminente na critica brasileira, tambem enveredou um dia pela novella, como Sainte-Beuve, que escreveu Volupté, antes de attingir o summo gráo na critica franceza. Tambem ha aqui um narrador e um observador, e ha mais aquillo que não acharemos em Volupté, um paizagista e um miniaturista. Já era tempo de dar ás Scenas da vida amazonica outra e melhor edição. Eu, que as reli, achei-lhes o mesmo sabor de outr'ora. Os que as lerem, pela primeira vez, dirão se o meu falar desmente as suas proprias impressões.
Talvez achem commigo que o titulo é exacto, sem dizer tudo. São effectivamente scenas daquella vida e daquelle meio; sente-se que não podem ser de outra parte, que foram vistas e recolhidas directamente. Mas não diz tudo o titulo. Tres, ao menos, das quatro novellas em que se divide o livro, são pequenos dramas completos. Taes o Bôto, o Crime do Tapuio e a Sorte de Vicentina. O proprio Voluntario da patria tem o drama na alma de tia Zeferina, desde a quietação na palhoça até aquelle adeus que ella fica acenando na margem, não já ao filho, que a não póde ver, nem ella a elle, mas ao fumo do vapor que se perde ao longe no rio, como uma sombra.
Em todos elles, os costumes locaes e a natureza grande e rica, quando não é só aspera e dura, servem de quadro a sentimentos ingenuos, simples e alguma vez fortes. O Sr. José Verissimo possue o dom da sympathia e da piedade. As suas principaes figuras são as victimas de um meio rude, como Benedicta, Rosinha e Vicentina, ou ainda aquelle José Tapuio, que confessa um crime não existente, com o unico fim de salvar uma menina, ou de «fazê bem p'ra ella», como diz o texto. Não se irritem os amigos da lingua culta com a prosodia e a syntaxe de José Tapuio. Ha dessas phrases no livro, postas com arte e cabimento, a espaços, onde é preciso caracterisar melhor as pessoas. Ha locuções da terra. Ha a technologia dos usos e costumes. Ninguem esquece que está deante da vida amazonica, não toda, mas aquella que o Sr. José Verissimo escolheu naturalmente para dar-nos a visão do contraste entre o meio e o homem.
O contraste é grande. A floresta e a agua envolvem e acabrunham a alma. A magnificencia d'aquellas regiões chega a ser excessiva. Tudo é innumeravel e immensuravel. São milhões, milhares e centenas os seres que vão pelos rios e igarapés, que espiam entre a agua e a terra, ou bramam e cantam na matta, em meio de um concerto de rumores, coleras, delicias e mysterios. O Sr. José Verissimo dá-nos a sensação daquella realidade. A descripção do caminho que leva ao povoado do Ereré, atravez do «coberto», do «lavrado» e de um espaço sem nome, é das mais bellas e acabadas do livro. Assim tambem a do Parú, ou antes a historia do rio nas duas partes do anno, de verão e de inverno, um só lago intermino ou muitos lagos grandes, as ilhas que nascem e desapparecem, com os aspectos varios do tempo e da margem.
Não são descripções trazidas de acarreto. As pessoas das narrativas vão para alli continuar a acção começada. No Parú, como o tempo é de «salga», a agua é sulcada de canôas, a margem alastrada de barracas, o sussurro do trabalho humano espalha-se e cresce. Ahi assistimos á morte tragica do pelintra de Obidos, regatão de alguns dias, deixando uma triste moça defunta, amarella e magra. Adeante, por meio do «coberto» e do «lavrado», vemos correr Vicentina, com a filha de alguns mezes «escarranchada nos quadris», fugindo á casa do marido, depois ás onças, depois á solidão, que parece maior alli que em nenhuma parte; e ambas as scenas são das mais vivas do livro.
Ao pé do tragico, o mesquinho, o commum, o quotidiano da existencia e dos costumes, que o autor pinta breve ou minuciosamente. Os pequenos quadros succedem-se, como o da rua Bacuri, na cidade de Obidos, á hora da sésta, ou no fim d'ella, quando «a natureza estira os braços n'um bocejo preguiçoso de quem deixa a rêde». A rêde é o movel principal das casas; ella serve ao somno, ao descanço, á palestra, á indolencia. Se a casa é pobre, pouco mais ha que ella; mas, pouco ou muito, podemos fiar-nos da veracidade do autor, que não perde o que seja um rasgo de costumes ou possa avivar a côr da realidade. Vimos o regatão; veremos a benzedeira, a pintadeira de cuias, a mameluca, sem exclusão do jurado, do promotor, do presidente de provincia.