Nem falta aqui a observação fina e aguda. Uma senhora, a quem a tia Zeferina, que a criou, recorre chorando para que faça soltar o filho, preso para voluntario (como diziam aqui no sul), ouve a mãe tapuia, tem sincera pena della, promette que sim, fala do presidente da provincia, que é bom moço, do baile do dia 7 de Setembro, em palacio, a que ella foi: «uma festa de estrondo; as senhoras estavam todas vestidas de verde e amarello; muitas tinham mandado vir o vestido do Pará, mas foi tolice, porque em Manáos arranjava-se um vestido tão bem como no Pará; o della, por exemplo, foi muito gabado...» Já a tia Zeferina ouvira cousa analoga ao major Rabello, seu compadre, quando lhe foi contar a prisão do filho, e elle rompeu furioso contra os adversarios politicos. Todos os negocios pessoaes se vão coçando assim naquella agonia errante. No Bôto, é o proprio pae de Rosinha, que não excava muito as razões do abatimento mortal da filha, «por andar atarefado com as eleições».

Que elle tambem ha eleições no Amazonas; é o tempo da salga politica, a quadra das barracas e dos regatões. Não nos dá um capitulo desses o Sr. José Verissimo, naturalmente por lhe não ser necessario, mas a rivalidade da villa e do porto de Monte Alegre é um quadro vivo do que são raivas locaes, os motivos que as accendem, a guerra que fazem e os odios que ficam. Aqui basta a questão de saber se o correio morará no porto, em baixo, ou na villa em cima. E porque não ha victoria sem foguetes, os foguetes vão contar ás nuvens o despacho presidencial. A sessão do jury, no Crime do Tapuio, é outro quadro finamente acabado. Tudo sem sombra de caricatura. O embarque dos voluntarios é outro, mas ahi a emoção discreta acompanha os movimentos mal ordenados dos homens. Nós os vimos desembarcar aqui, esses e outros, tropegos e obedientes, marchando mal, mas emfim marchando seguros para a guerra que já lá vae.

Em tão varias scenas e lances, o estylo do Sr. José Verissimo (salvo nos Esbocetos, cuja estructura é differente) é já o estylo correntio e vernaculo dos seus escriptos posteriores. Já então vemos o homem feito de mão assentada, dominando a materia. Ha, a mais uma nota de poesia, a graça e o vigor das imagens que outra sorte de trabalhos nem sempre consentem. Aqui está a frente da casa do sitio em que Rosinha nasceu: «A palha da cobertura, não aparada, dava-lhe o aspecto alvar das creanças que trazem os cabellos cahidos na testa.» No tempo da pesca emigram, não só os homens, mas tambem os cães e os urubús. Os cães são magros e famintos: «Cães magros, com as costellas salientes, como se houvessem engolido arcos de barris...» Os urubús pousam nas arvores, alguma vez baixam ao solo, andando «com o seu passo rythmado de anjos de procissão». A umas arvores que ha na grande charneca do «coberto», bastava mostral-as por uma imagem curta e viva, «em posições retorcidas de entrevados». Mas não se contenta o nosso autor de as dizer assim: em terra tal, tudo ha de vibrar ao calor do sol: «Dir-se-hia que o sol, que abraza aquellas paragens, obriga-as a taes contorções violentas e paralysa-as depois...»

Ha muitas dessas imagens originaes e expressivas; melhor é lel-as ou relel-as intercaladas na narração e na descripção. Chateaubriand, escrevendo em 1834 a Sainte-Beuve, justamente a proposito de Volupté, que acabava de sahir do prélo, pergunta-lhe admirado como é que elle, René, não achára tantas outras. «Comment n'ai-je pas trouvé ces deux vieillards et ces deux enfants entre lesquels une révolution a passé...» etc. Desculpe a pontinha de vaidade, é de Chateaubriand, e alguma cousa se ha de perdoar ao genio. Mas, em verdade, mais de um de nós outros poderiamos dizer com sinceridade e modestia como é que nos não acudiram taes e taes imagens do nosso autor, pois que ellas trazem a feição de cousas antes saidas do tinteiro que compostas no papel.

Tambem é dado perguntar porque é que o Sr. José Verissimo deixou logo um terreno que soube arrotear com fructo. Elle dirá, em uma nota, falando dos Esbocetos, que o fructo era da primeira mocidade. Vá que sim; mas as Scenas trazem outra experiencia, e a boa terra não é esquecida, se se lhe encommenda alguma cousa com amor.

Até lá, fiquem-nos estas Scenas da vida amazonica. Mais tarde, algum critico da escola do autor compulsará as suas paginas para restituir costumes extinctos. Muito estará mudado. Onde José Tapuio lutou com a sicurijú até matal-a, outro homem estudará alguma nova força da natureza até reduzil-a ao domestico. Coberto e lavrado darão melhor caminho ás pessoas. Já agora, como disse nhâ Miloca á mãe tapuia, os vestidos fazem-se tão bons em Manáos como em Belém. A politica irá pelas tesouras da costureira, e a natureza agasalhará todas as artes, suas hospedas. Tal critico, se tiver o mesmo dom de analyse do Sr. José Verissimo, achará que um testemunho esclarecido é mais cabal que outro, e regalará os seus leitores dando-lhe este depoimento feito com emoção, com exacção e com estylo.

EDUARDO PRADO

A ultima vez que vi Eduardo Prado foi na vespera de deixar o Rio de Janeiro para recolher a S. Paulo, dizem que com o germen do mal e da morte em si. Naquella occasião era todo vida e saúde. Quem então me dissesse que elle ia tambem deixar o mundo, não me causaria espanto, porque a injustiça da natureza acostuma a gente aos seus golpes; mas, é certo que eu buscaria maneira de obter outras horas como aquella, em que me detivesse ao pé delle, para ouvil-o e admiral-o.

Só falámos de arte. Ouvi-lhe noticias e impressões, senti-lhe o gosto apurado e a critica superior, tudo envolvido naquelle tom ameno e simples, que era um relevo mais aos seus dotes. Não tinhamos intimidade; faltou-nos tempo e a pratica necessaria. Antes daquella vez ultima, apenas falámos tres ou quatro, o bastante para consideral-o bem e cotejar o homem com o escriptor. Eduardo Prado era dos que se deixam penetrar sem esforço e com prazer. O que agora li a seu respeito na primeira mocidade, na escola e nos ultimos annos, referido por amigos que parecem não o esquecer mais, confirma a minha impressão pessoal. Aliás, os seus escriptos mostravam bem o homem. Apanhava-se o sentimento da harmonia que ajustava nelle a vida moral, intellectual e social.

Principalmente artista e pensador, possuia o divino horror á vulgaridade, ao logar commum e á declamação. Se entrasse na vida politica, que apenas atravessou com a penna, em dias de luta, levaria para ella qualidades de primeira ordem, não contando o humour, tão diverso da chalaça e tão original nelle. Mas a erudição e a historia, não menos que a arte, eram agora o seu maior encanto. Sabia bem todas as cousas que sabia.