Naturalmente remontei commigo, durante aquella boa hora, e ainda depois della, ao tempo das cartas de viagem que nos deu tão rica amostra de um grande talento que viria a crescer e subir. A materia em si convidava ao egotismo, mas elle não padecia desse mal. Tambem faria correr o risco da repetição de cousas vistas e pintadas, que se não acha aqui. A faculdade de ver claro e largo, a arte de dizer originalmente a sensação pessoal, elle as possuia como os principaes que hajam andado as terras ou rasgado os mares deste mundo. Invenção de estylo, observação aguda, erudição discreta e vasta, graça, poesia e imaginação produziram essas paginas vivas e saborosas. Aquella partida de Napoles, sob um céo chuvoso e de chumbo, não se esquece. Relê-se com encanto essa explicação do tempo aspero, durante o qual o céo napolitano se recompõe, para começar novamente a opera «com os córos de pescadores e as barcarolas, a musica de luz e de azul». Assim a Africa, assim todas as partes onde quer que este brasileiro levou a ancia de ver homens e cousas, cidades e costumes, a natureza vária entre ruínas perpetuas, através de regiões remotas...

Conta-se que elle chorou, quando morreu Eça de Queiroz. Agora, que ambos são mortos, alguem que imaginasse e escrevesse o encontro das duas sombras, á maneira de Luciano, daria uma curiosa pagina de psychologia. As confabulações de taes espiritos são dignas de memoria. Sterne escreveu que «um dia, conversando com Voltaire...» e imagina-se o que diriam elles. Imagina-se o que diriam, todas as noites, Stendhal e Byron, passeando no solitario foyer do theatro Scala. Quando Montaigne ouvia as historias que Amyot lhe ia contar, podemos ver a delicia de ambos e admittir que as visitas continuam no outro mundo. Assim se podia dizer do Eça e do Eduardo, por um texto que exprimisse o talento, o amor das cousas finas e bellas, e, emfim, a grande sympathia que um inspirava ao outro.

Quando me despedi de Eduardo Prado, naquelle dia, vim perguntando a mim mesmo se teria vida bastante para ler e admirar as obras-primas que esse talentoso brasileiro levava no cerebro em gestação, ou em germen, e durante muitos annos viriam abastecer a nossa lingua e a nossa terra. Seis dias depois, era elle que morria. Chamei injusta á natureza; bastaria dizer—indifferente.

ANTONIO JOSÉ

Um dia destes, relembrando uma passagem da tragedia que Magalhães consagrou á memoria de Antonio José, adverti na resposta dada pelo judeu ao conde de Ericeira, quando este lhe recommenda que imite Molière; o judeu responde que Molière escrevia para francezes e elle não. Será essa resposta a rigorosa expressão da verdade? Antonio José não se modelou, certamente, pelas obras do grande comico, não cogitou jamais da simples pintura dos vicios e dos caracteres. Molière caminhou do Medico Volante e dos Zelos de Barbouillé á Escola das Mulheres e ao Tartufo; Antonio José não passou das Guerras do Alecrim e Mangerona, e, dado que tentasse fazel-o, é certo que não poderia ir muito além. Não tinha centro apropriado, nem largas vistas; faltavam-lhe outros meios, outros intuitos; e, se porventura entrou em seu espirito reatar a tradição de Gil Vicente, levantando sobre os alicerces lançados por esse operario do seculo XVI as paredes de um theatro regular, convinha justamente não imitar nada, nem ninguem, não se fazer Molière, nem Plauto, ficar Antonio José; é a condição das obras vivas.

Interpretada desse modo, é exacta e verdadeira a resposta que Magalhães põe na boca do judeu; mas só desse modo. O Amphytrião prova que o nosso poeta alguma cousa imitou e transplantou de Molière, a tal ponto que forçosamente o tinha deante de si, ou na banca de trabalho ou na memoria; e, porque esta observação não haja sido feita, cuido que interessará, quando menos, a titulo de curiosidade litteraria. Ao mesmo tempo, direi o que me parece do escriptor e da sua obra.

E, antes de mais nada, occorre ponderar que Antonio José gosa de uma reputação sobre palavra. A fogueira de 18 de Outubro de 1739 illuminou-lhe a figura de maneira que o puderam ver todos os olhos; a tragedia do Sr. Magalhães vulgarisou-o entre as nossas platéas de ha 40 annos; mas só os estudiosos o terão lido, e nem todos, porque a tarefa exige constancia e esforço, embora de certo modo os pague. Póde-se dizer, sem erro, que elle pertence á familia dos poetas comicos, qualquer que seja o grau de parentesco,—com a circumstancia que era um desperdiçado,—trocava a boa moeda do comico pelo cobre vulgar do burlesco. Mas, poeta comico era-o, e de boa veia;—mais de certo que Nicolau Luiz, que lhe succedeu na estima das platéas de Lisboa, mais ainda que Manuel de Figueiredo, cujas intenções literarias abafaram, talvez, a livre expansão do engenho, e que aliás escrevia de si mesmo que—«havendo-se enganado comsigo em infinitas cousas, nunca se preoccupou de que tinha graça.» Accresce que o fim tragico do judeu communica ás suas paginas alegres e juvenis um reflexo de sympathica melancolia, que ainda mais nos convida a percorrel-as e estudal-as. A piedade não é de certo razão determinativa em pontos de critica, e tal poetastro haverá que, succumbindo a uma grande injustiça social, somente inspire compaixão sem desafiar a analyse. Não é o caso de Antonio José; este mereceria por si só que o estudassemos, ainda despido das occorrencias tragicas que lhe circumdam o nome.

Nenhuma das comedias do judeu se póde dizer excellente e perfeita; ha porém graus entre ellas, e a todas sobreleva a das Guerras do Alecrim e Mangerona. Nesta, como nas demais, nota-se de certo muita espontaneidade, viveza de dialogo, graça de estylo, variedade de situações, e certo conhecimento de scena; mas a alma de todas ellas não é grande; vive-se alli de enredo e de apparato. Se ao poeta foi estranha a invenção dos caracteres e a pintura dos vicios, não menos o foi a transcripção dos costumes locaes. Salvo o Alecrim e Mangerona, todas as suas peças são inteiramente alheias á sociedade e ao tempo; a Esopaida tem por base um assumpto antigo; a Vida de D. Quixote põe em scena o personagem de Cervantes; as outras peças são todas mythologicas. Podiam estas, não obstante o rotulo, conter a pintura dos costumes e da sociedade cujo producto eram; mas, comquanto em taes composições influa muito o moderno, não se descobre nellas nenhuma intenção daquella natureza.

Ao contrario, a intenção quasi exclusiva do poeta era a galhofa, e tal galhofa que transcendia muita vez as raias da conveniencia publica. Nenhuma de suas peças,—operas é o nome classico,—nenhuma é isenta de expressões baixas e até obscenas, com que elle, segundo lhe arguia um prelado, «chafurdou na immundicie.» Tinha razão o prelado, mas não basta ter razão; cumpre saber tel-a. Ora, a baixeza e a obscenidade das locuções não eram novidade na scena portugueza, nem na de outros paizes; e, deixando de ir agora a exemplos estranhos á nossa lingua, basta lembrar que o Cioso, de Ferreira, do culto autor da Castro, foi dado por Figueiredo com a declaração de ter sido «expurgado segundo o melindre dos ouvidos do nosso seculo.» Gil Vicente, sem embargo de se representarem suas peças na côrte de D. João III e D. Manuel, adubava-as ás vezes de especies que nos parecem hoje bem pouco exquisitas. As operas do judeu eram dadas num theatro popular; não as ouvia a côrte de D. João V, mas o povo e os burguezes de Lisboa, cujas orelhas não teriam ainda os melindres que mais tarde lhes attribuiu Figueiredo. A differença entre Antonio José e os outros era afinal uma questão de quantidade; mas, se o tempo lh'o permittia e, com o tempo, a censura, que muito é que o poeta reincidisse? Não é isto escusal-o, mas explical-o. Deixemos os trocados e equivocos, que são um chiste de mau gosto, mácula de estylo, que o poeta exagerou até á puerilidade, cedendo a si mesmo e ao riso das platéas. Outro defeito que se lhe argúe, é o tom guindado e os arrebiques de conceito, que se notam em muitas falas de certos personagens, os deuses, principes e heróes. Um de seus biographos, comparando o estylo de taes personagens com o dos criados e pessoas infimas, que são simples e naturaes, suppõe que houve no poeta intenção satyrica, opinião que me parece carecer de fundamento, entre outras razões porque não ha sempre aquella differença de estylo, e não é raro falarem os principaes personagens do mesmo modo natural e recto, que os de condição inferior. Guindam-se muita vez, mas era achaque do tempo e exageração na maneira de empregar o estylo nobre, porque havia então um estylo nobre; e, se o judeu teve alguma vez intenção satyrica, arrebicando ou empolando a expressão, tal intenção foi sómente literaria e nenhuma outra. Que diremos dos anachronismos de linguagem? Esses são constantes e excessivos. Os dobrões de Alcmena, a alcunha de alfacinha dada a Amphytrião, Juno chrismada em Felizarda, um criado antigo «de corpo á ingleza,» outro com «relogio de pendurucalhos,» deviam promover a gargalhada franca do povo. Esse fugir do meio e da acção para a realidade presente vae algumas vezes além, como na Esopaida, em que o heróe, falando de sua vida, diz que anda em livros pelo mundo—«e agora me dizem que se está representando no Bairro-Alto.» Já na Vida de D. Quixote havia o poeta posto a mesma cousa na boca de Sancho, quando o cavalleiro, vendo um barco amarrado, pergunta ao escudeiro:—«Sabes onde estamos?—Sei bem.—Aonde?—No Bairro-Alto.» O judeu podia responder que tal séstro foi o de Regnard e o de Boursault, por exemplo, que poz o seu Esopo a tomar café e metteu com elle esposas de tabelliães; podia citar muitos outros exemplos anteriores e contemporaneos, e a critica se incumbiria de apontar os que vieram depois delle; mas não vale a pena.

Venhamos ao Amphytrião. Um erudito escriptor, o Sr. Theophilo Braga, suppõe que a intenção do poeta, nessa comedia, foi pintar em Jupiter a pessoa de D. João V, supposição que detidamente examinei e me parece inteiramente gratuita. Cuido que o critico faz de uma coincidencia um proposito, e fundamenta a sua suspeita na possivel analogia das aventuras do deus pagão e do rei christão. A analogia podia ser um elemento de prova, mas desacompanhada de outras não faz chegar a nenhum resultado definitivo. Ora, basta ler o Amphytrião, basta comparar a situação do poeta e o tempo para varrer do espirito semelhante hypothese. Certo, não faltava audacia ao poeta; ahi está, como exemplo, a definição da justiça, feita por Sancho, na Vida de D. Quixote; mas entre a generalidade desse trecho e a satyra pessoal do Amphytrião vae um abysmo. Occorre-me que do Amphytrião de Molière tambem se disse ser allusão a Luiz XIV, com a differença que em França não se attribuiu a Molière a intenção de ferir, mas de ser agradavel ao rei, que lhe havia encommendado aquella apotheose de suas proprias aventuras, opinião esta que foi de todo condemnada. Não, não ha motivo para attribuir a Antonio José a intenção que lhe suppõe o Sr. Theophilo Braga; e, se tal intenção existisse, o desenlace da comedia, quando Jupiter se declara acima da lei, viria a ser de um sarcasmo tão crú que não alcançariamos comprehendel-o naquelle seculo.