Evidentemente, o judeu achou na aventura pagã o mesmo que lhe acharam Plauto, Molière e Camões,—um assumpto prestadio ás combinações scenicas, e, demais, singularmente proprio para as chufas do Bairro-Alto. Desnecessario é dizer os tramites dessa travessura de Jupiter, que, namorado de Alcmena, toma a figura do marido e vae á casa della, acompanhado de Mercurio, que copia as feições de Sosias, criado de Amphytrião. O nosso poeta seguiu no principal a fabula que encontrou nos antecessores, fazendo-lhe todavia as alterações suscitadas pelo gosto proprio e das platéas. Assim, o Sosias de Plauto, de Molière e de Camões é na peça de Antonio José um Saramago. Não lhe mudou elle o essencial; trocando-lhe o nome, obedeceu ao systema de dar aos criados nomes burlescos. O de Jason, nos Encantos de Medéa, chama-se Sacatrapos; ha nas outras operas um Carangueijo, um Esfusiote, um Chichisbéu. São nomes, não valem mais que nomes. Nem Molière chamou Dandin ao principal personagem de uma de suas comedias sinão para o caracterisar desde logo de um modo jovial; não pretendeu outra cousa. Comtudo, a observação em relação a Antonio José tem o valor de um rasgo significativo.
Cotejando o Amphytrião de Antonio José com os de seus antecessores, vê-se o que elle imitou dos modelos, e o que de sua casa introduziu. Já disse que no principal os seguiu a todos; mas nem sempre soube escolher, e darei disso um exemplo claro. Camões, que não sendo poeta comico, era todavia homem de tacto e gosto, corrigiu, antes de Molière, o desenlace do Amphytrião de Plauto. Na comedia deste, logo depois de explicar Jupiter os equivocos da situação e de annunciar ao marido de Alcmena que o filho desta é seu, mostra-se Amphytrião inteiramente satisfeito e glorioso com o desenlace. Camões supprimiu tão singular contentamento, e o mesmo fez Molière; em ambos os poetas Amphytrião ouve silencioso as declarações do pae dos deuses, sem que Alcmena assista a ellas. Antonio José não só não seguiu nessa parte os modelos recentes, mas até carregou a mão sobre o que imitou de Plauto. A alegria do seu Amphytrião e da sua Alcmena é tão franca, tamanho é o alvoroço dos dous esposos, que realmente chega a offender as leis da verosimilhança, ainda tratando-se de um caso divino. Neste ponto Antonio José foi antes inadvertido do que obrigado do gosto publico. Outro caso. Nas comedias anteriores não ha nenhum logar em que Alcmena veja ao mesmo tempo os dois Amphytriões, e isto não só era necessario para prolongar e justificar os equivocos, mas até o exigia a verosimilhança, porque, desde que Alcmena chegasse a ver juntos os dous exemplares exactos do marido, saía da boa fé que serve de fundamento á sua illusão, para cair no maravilhoso e no inextricavel. E é justamente o que acontece na comedia do judeu.
Vamos agora ao que o judeu imitou directamente de Molière. Ha na comedia daquelle um caracter, o de Cornucopia, mulher de Saramago, que não tem equivalente na de Plauto, nem na de Camões, e que só na de Molière existe. «Molière (é observação de La Harpe), fazendo de Cleanthis mulher de Sosias, inventou uma situação parallela á de Amphytrião e Alcmena, dando-lhe porém differente aspecto; Cleanthis pertence ao numero das esposas que, por serem honestas, cuidam ter o direito de ser insupportaveis». Ora bem, a situação e o caracter de Cleanthis transportou-os o judeu para o seu Amphytrião, e não se póde dizer encontro fortuito, senão deliberado proposito. Basta cotejal-os com espirito advertido; a differença é de tom, de estylo; substancialmente, a invenção é a mesma; as proprias idéas reproduzem-se ás vezes na obra do judeu. Assim, logo na scena em que Mercurio transformado em Saramago (Sosias) encontra a mulher deste, achamos o traço commum aos dois poetas.
Na comedia de Molière:
CLEANTHIS
Regarde, traitre, Amphytrion;
Vois comme pour Alcmène il étale de flamme;
Et rougis là-dessus du peu de passion
Que tu témoignes pour ta femme.
MERCURIO
Hé! mon Dieu! Cléanthis, ils sont encore amants.
Il est certain âge où tout passe;
Et ce qui leur sied bien dans ces commencements,
En nous, vieux mariés, aurait mauvaise grâce.
Il nous ferait beau voir, attachés face à face,
A pousser les beaux sentiments!
CLEANTHIS
Mérites-tu, pendard, cet insigne bonheur
De te voir pour épouse une femme d'honneur?