—Que quer então que eu faça, além do que faço?
—Alguma cousa mais certa. Veja o marceneiro da esquina, o homem do armarinho, o typographo que casou sabbado, todos têm um emprego certo... Não fique zangado; não digo que você seja vadio, mas a occupação que escolheu, é vaga. Você passa semanas sem vintem.
—Sim, mas lá vem uma noite que compensa tudo, até de sobra. Deus não me abandona, e preto fugido sabe que commigo não brinca; quasi nenhum resiste, muitos entregam-se logo.
Tinha gloria nisto, falava da esperança como de capital seguro. Dahi a pouco ria, e fazia rir á tia, que era naturalmente alegre, e previa uma patuscada no baptisado.
Candido Neves perdera já o officio de entalhador, como abrira mão de outros muitos, melhores ou peiores. Pegar escravos fugidos trouxe-lhe um encanto novo. Não obrigava a estar longas horas sentado. Só exigia força, olho vivo, paciencia, coragem e um pedaço de corda. Candido Neves lia os annuncios, copiava-os, mettia-os no bolso e saía ás pesquizas. Tinha boa memoria. Fixados os signaes e os costumes de um escravo fugido, gastava pouco tempo em achal-o, segural-o, amarral-o e leval-o. A força era muita, a agilidade tambem. Mais de uma vez, a uma esquina, conversando de cousas remotas, via passar um escravo como os outros, e descobria logo que ia fugido, quem era, o nome, o dono, a casa deste e a gratificação; interrompia a conversa e ia atraz do vicioso. Não o apanhava logo, espreitava logar azado, e de um salto tinha a gratificação nas mãos. Nem sempre saía sem sangue, as unhas e os dentes do outro trabalhavam, mas geralmente elle os vencia sem o menor arranhão.
Um dia os lucros entraram a escassear. Os escravos fugidos não vinham já, como d'antes, metter-se nas mãos de Candido Neves. Havia mãos novas e habeis. Como o negocio crescesse, mais de um desempregado pegou em si e n'uma corda, foi aos jornaes, copiou annuncios e deitou-se á caçada. No proprio bairro havia mais de um competidor. Quer dizer que as dividas de Candido Neves começaram de subir, sem aquelles pagamentos promptos ou quasi promptos dos primeiros tempos. A vida fez-se difficil e dura. Comia-se fiado e mal; comia-se tarde. O senhorio mandava pelos alugueis.
Clara não tinha sequer tempo de remendar a roupa ao marido, tanta era a necessidade de coser para fóra. Tia Monica ajudava a sobrinha, naturalmente. Quando elle chegava á tarde, via-se-lhe pela cara que não trazia vintem. Jantava e saía outra vez, á cata de algum fugido. Já lhe succedia, ainda que raro, enganar-se de pessoa, e pegar em escravo fiel que ia a serviço de seu senhor; tal era a cegueira da necessidade. Certa vez capturou um preto livre; desfez-se em desculpas, mas recebeu grande somma de murros que lhe deram os parentes do homem.
—É o que lhe faltava! exclamou tia Monica, ao vel-o entrar, e depois de ouvir narrar o equivoco e suas consequencias. Deixe-se disso, Candinho; procure outra vida, outro emprego.
Candido quizera effectivamente fazer outra cousa, não pela razão do conselho, mas por simples gosto de trocar de officio; seria um modo de mudar de pelle ou de pessoa. O peior é que não achava á mão negocio que aprendesse depressa.
A natureza ia andando, o feto crescia, até fazer-se pesado á mãe, antes de nascer. Chegou o oitavo mez, mez de angustias e necessidades, menos ainda que o nono, cuja narração dispenso tambem. Melhor é dizer somente os seus effeitos. Não podiam ser mais amargos.