—Não, tia Monica! bradou Candinho, recusando um conselho que me custa escrever, quanto mais ao pae ouvil-o. Isso nunca!
Foi na ultima semana do derradeiro mez que a tia Monica deu ao casal o conselho de levar a creança que nascesse á Roda dos engeitados. Em verdade, não podia haver palavra mais dura de tolerar a dous jovens paes que espreitavam a creança, para beijal-a, guardal-a, vel-a rir, crescer, engordar, pular... Engeitar quê? engeitar como? Candinho arregalou os olhos para a tia, e acabou dando um murro na mesa de jantar. A mesa, que era velha e desconjuntada, esteve quasi a se desfazer inteiramente. Clara interveiu:
—Titia não fala por mal, Candinho.
—Por mal? replicou tia Monica. Por mal ou por bem, seja o que fôr, digo que é o melhor que vocês podem fazer. Vocês devem tudo; a carne e o feijão vão faltando. Se não apparecer algum dinheiro, como é que a familia ha de augmentar? E depois, ha tempo; mais tarde, quando o senhor tiver a vida mais segura, os filhos que vierem serão recebidos com o mesmo cuidado que este ou maior. Este será bem criado, sem lhe faltar nada. Pois então a Roda é alguma praia ou monturo? Lá não se mata ninguem, ninguem morre á tôa, emquanto que aqui é certo morrer, se viver á mingua. Enfim...
Tia Monica terminou a phrase com um gesto de hombros, deu as costas e foi metter-se na alcova. Tinha já insinuado aquella solução, mas era a primeira vez que o fazia com tal franqueza e calor,—crueldade, se preferes. Clara estendeu a mão ao marido, como a amparar-lhe o animo; Candido Neves fez uma careta, e chamou maluca á tia, em voz baixa. A ternura dos dous foi interrompida por alguem que batia á porta da rua.
—Quem é? perguntou o marido.
—Sou eu.
Era o dono da casa, credor de tres mezes de aluguel, que vinha em pessoa ameaçar o inquilino. Este quiz que elle entrasse.
—Não é preciso...
—Faça favor.