O credor entrou e recusou sentar-se; deitou os olhos á mobilia para ver se daria algo á penhora; achou que pouco. Vinha receber os alugueis vencidos, não podia esperar mais; se dentro de cinco dias não fosse pago, pol-o-hia na rua. Não havia trabalhado para regalo dos outros. Ao vel-o, ninguem diria que era proprietario; mas a palavra suppria o que faltava ao gesto, e o pobre Candido Neves preferiu calar a retorquir. Fez uma inclinação de promessa e supplica ao mesmo tempo. O dono da casa não cedeu mais.
—Cinco dias ou rua! repetiu, mettendo a mão no ferrolho da porta e saindo.
Candinho saiu por outro lado. Nesses lances não chegava nunca ao desespero, contava com algum emprestimo, não sabia como nem onde, mas contava. Demais, recorreu aos annuncios. Achou varios, alguns já velhos, mas em vão os buscava desde muito. Gastou algumas horas sem proveito, e tornou para casa. Ao fim de quatro dias, não achou recursos; lançou mão de empenhos, foi a pessoas amigas do proprietario, não alcançando mais que a ordem de mudança.
A situação era aguda. Não achavam casa, nem contavam com pessoa que lhes emprestasse alguma; era ir para a rua. Não contavam com a tia. Tia Monica teve arte de alcançar aposento para os tres em casa de uma senhora velha e rica, que lhe prometteu emprestar os quartos baixos da casa, ao fundo da cocheira, para os lados de um pateo. Teve ainda a arte maior de não dizer nada aos dous, para que Candido Neves, no desespero da crise, começasse por engeitar o filho e acabasse alcançando algum meio seguro e regular de obter dinheiro; emendar a vida, em summa. Ouvia as queixas de Clara, sem as repetir, é certo, mas sem as consolar. No dia em que fossem obrigados a deixar a casa, fal-os-hia espantar com a noticia do obsequio e iriam dormir melhor do que cuidassem.
Assim succedeu. Postos fóra da casa, passaram ao aposento de favor, e dous dias depois nasceu a creança. A alegria do pae foi enorme, e a tristeza tambem. Tia Monica insistiu em dar a creança á Roda. «Se você não a quer levar, deixe isso commigo; eu vou á rua dos Barbonos.» Candido Neves pediu que não, que esperasse, que elle mesmo a levaria. Notae que era um menino, e que ambos os paes desejavam justamente este sexo. Mal lhe deram algum leite; mas, como chovesse á noite, assentou o pae leval-o á Roda na noite seguinte.
Naquella reviu todas as suas notas de escravos fugidos. As gratificações pela maior parte eram promessas; algumas traziam a somma escripta e escassa. Uma, porém, subia a cem mil réis. Tratava-se de uma mulata; vinham indicações de gesto e de vestido. Candido Neves andára a pesquizal-a sem melhor fortuna, e abrira mão do negocio; imaginou que algum amante da escrava a houvesse recolhido. Agora, porém, a vista nova da quantia e a necessidade della animaram Candido Neves a fazer um grande esforço derradeiro. Saiu de manhã a ver e indagar pela rua e largo da Carioca, rua do Parto e da Ajuda, onde ella parecia andar, segundo o annuncio. Não a achou; apenas um pharmaceutico da rua da Ajuda se lembrava de ter vendido uma onça de qualquer droga, tres dias antes, á pessoa que tinha os signaes indicados. Candido Neves parecia falar como dono da escrava, e agradeceu cortezmente a noticia. Não foi mais feliz com outros fugidos de gratificação incerta ou barata.
Voltou para a triste casa que lhe haviam emprestado. Tia Monica arranjára de si mesma a dieta para a recente mãe, e tinha já o menino para ser levado á Roda. O pae, não obstante o accordo feito, mal poude esconder a dôr do espectaculo. Não quiz comer o que Tia Monica lhe guardára; não tinha fome, disse, e era verdade. Cogitou mil modos de ficar com o filho; nenhum prestava. Não podia esquecer o proprio albergue em que vivia. Consultou a mulher, que se mostrou resignada. Tia Monica pintára-lhe a criação do menino; seria maior miseria, podendo succeder que o filho achasse a morte sem recurso. Candido Neves foi obrigado a cumprir a promessa; pediu á mulher que désse ao filho o resto do leite que elle beberia da mãe. Assim se fez; o pequeno adormeceu, o pae pegou delle, e saiu na direcção da rua dos Barbonos.
Que pensasse mais de uma vez em voltar para casa com elle, é certo; não menos certo é que o agazalhava muito, que o beijava, que lhe cobria o rosto para preserval-o do sereno. Ao entrar na rua da Guarda Velha, Candido Neves começou a afrouxar o passo.
—Hei de entregal-o o mais tarde que puder, murmurou elle.
Mas não sendo a rua infinita ou sequer longa, viria a acabal-a; foi então que lhe occorreu entrar por um dos beccos que ligavam aquella á rua da Ajuda. Chegou ao fim do becco e, indo a dobrar á direita, na direcção do largo da Ajuda, viu do lado opposto, um vulto de mulher; era a mulata fugida. Não dou aqui a commoção de Candido Neves por não podel-o fazer com a intensidade real. Um adjectivo basta; digamos enorme. Descendo a mulher, desceu elle tambem; a poucos passos estava a pharmacia onde obtivera a informação, que referi acima. Entrou, achou o pharmaceutico, pediu-lhe a fineza de guardar a creança por um instante; viria buscal-a sem falta.