—Pois duvida?
—Eu duvido de tudo e de todos; até de mim. Mas em fim, preciso de alguem que me ouça, a quem eu conte o que penso e o que sinto, e até o que receio, porque tambem receio, e ha horas em que tremo sem saber de que. É verdade, ha occasiões em que me parece que uma grande infelicidade vae cair sobre mim, e dahi a nada penso justamente o contrario; penso que vou receber maior felicidade do mundo, e fico alegre como um passarinho. Cousas de criança, não é?
—Não, cousas de moça. É certo que ama? a quem?
Yayá olhou para elle algum tempo, satisfeita da impaciencia que parecia ler-lhe na fronte.
—Respondo que sim e que não, disse ella. Se me pergunta a quem amo, digo-lhe que não sei, não amo ninguem; mas sinto alguma cousa mysteriosa e exquisita, e não sei... desconfio... não sei que seja. Porque é que as mesmas cousas, que me eram indifferentes, agora me parecem interessantes, e até chego a suppôr que me falam? Ainda ha pouco, antes de o ver, estava a olhar embebida para o ceu, quasi sem pensar, mas ainda assim curiosa ou anciosa; olhava para o ceu e para o mar; o coração apertou-se-me; depois alargou-se-me como se quizesse devorar tudo. Ha dias em que me levanto alegre e viva, como uma creança; papae diz que são os meus dias azues. Ha outros em que tenho vontade de quebrar tudo, e não digo mais de duas palavras em cada hora; são os meus dias negros. Ouço ás vezes uma voz que me fala; penso que é alguem e reconheço que a voz é a da minha propria imaginação. Tudo será imaginação, creio; mas é tão novo e tão bom! Em todo caso, parece-me extraordinario, e se não é loucura... É verdade, ás vezes penso que vou ficar douda, e nessas occasiões tenho medo. Será isso?
—Não, acudiu Jorge, não é loucura, é sabedoria, é a grande sabedoria da natureza. Isso que sente, não será amor; mas é a necessidade de amar; é o rebate que lhe dá o coração. Alguem virá um dia, e a voz anonyma que a senhora costuma ouvir, lhe falará então pela boca do homem que o coração lhe apontar.
Yayá escutava-o como encantada, mas sem olhar para elle. Quando Jorge acabou, fez-se entre ambos uma longa pausa. A moça tinha os olhos no horizonte onde as cores da tarde desmaiavam rapidamente. Jorge contemplava-a tomado de interesse e até de inveja; comprehendia os primeiros sobresaltos desse coração em flôr, e dizia a si mesmo que ha sensações que o tempo leva para não restituir mais.
Yayá accordou de suas reflexões.
—Francamente, disse ella; o senhor não se ri de mim?
—Rir? A senhora não me conhece. Não ha que rir de sentimentos sinceros; e seria praga muito mal a confiança de que me dá prova. Não me julgue um espirito vulgar...