—Papae faz-lhe muitos elogios.
—Hade saber, ou fica sabendo que minha natureza sympathisa com o que está acima do commum. A senhora vale muito; posso dizer que ha dous mezes eu ainda a não conhecia...
—Não tente a minha vaidade, interrompeu Yayá; prefiro que me dê um bom conselho.
—Dou-lhe um, disse Jorge depois de curta pausa; resista um pouco a essas sensações, cujo excesso pode perturbar-lhe a existencia. Não é só o coração que lhe fala, é tambem a imaginação, e a imaginação, se é boa amiga, tem seus dias de infidelidade. Dê um pouco de poesia á vida, mas não cáia no romanesco; o romanesco é perfido. Eu, que lhe falo, lastimo não ter já essa ordem de sentimentos em flôr, e comtudo não sei se ganharia com elles.
—Que! não seria capaz de amar?
—Meu coração não envelheceu ainda.
—Entendo; amaria hoje de outro modo...
—De outro modo, e tão sinceramente como d'antes; um amor de olhos abertos.
—Penso que o amor verdadeiro, ou ao menos o melhor, é o que não vê nada em volta de si, e caminha direito, resoluto e feliz aonde o leva o coração. Para que servem os olhos abertos?
—A senhora quer saber muita cousa, disse Jorge sorrindo. Não basta que o coração lhe diga: ame a este; é preciso que os olhos approvem a escolha do coração. Admira-se? Ouça-me até o fim; eu desejo preserval-a de alguma escolha má. Eleja um marido digno, um espirito que a entenda, que a admire, um homem que a possa honrar; não se deixe levar dos primeiros olhos que pareçam responder aos seus...