Yayá abaixou a cabeça.
—Não acharei nenhuns, disse ella; eu creio que este amor morrerá commigo...
Como essa ideia parecesse entristecel-a, Jorge sentiu-se tomado de compaixão, ao ver que persistia naquella aurora pura uma sombra de superstição romanesca. Pegou-lhe na mão, viu-a estremecer, recusar-lh'a e cruzar os braços.
—Tem medo de mim? disse elle ao cabo de um instante.
—Tenho.
Jorge calou-se. Com a bengala entrou a reproduzir no chão umas reminiscencias de geometria. Sentia-se atalhado, curioso, e tanto desejava como lhe custava sair d'alli. Não chegava a entendel-a claramente; a verdade, quando ia a tocal-a, parecia inverosimil. Entretanto, Yayá não rompia o silencio; tinha a fronte pendida e meditava. Talvez meditava na palavra que acabava de proferir, fructo da situação violenta em que ella propria ou os acontecimentos a haviam collocado. Era a rebellião do pudor. De quando em quando, sacudia a fronte como a expellir uma ideia enfadonha ou cruel. N'uma dessas vezes, Jorge disse com brandura:
—Para que negal-o? a senhora padece; não sei se com razão ou sem ella, mas parece padecer muito?
—Oh! muito!
E dessa vez a palavra era tão angustiosa, tão sincera, tão vinda do coração, que elle cedeu antes a um impulso de generosidade do que á conveniencia de não ser repellido segunda vez Pegou-lhe nas mãos e pediu-lhe que fosse até o fim da confiança, dizendo-lhe a causa de seus males. Talvez elle pudesse removel-os.
Yayá inclinou o rosto sobre as mãos de Jorge. Este sentiu nellas algumas lagrimas, vertidas sem soluços. Não passava ninguem: mas elle nem teve tempo de reflectir na possibilidade de um extranho. Inclinou-se tambem e perguntou-lhe affectuosamente o que tinha. Yayá ergueu a cabeça, e enxugou os olhos, mas não respondeu nada.