Dessa vez a pergunta não passou vagamente; trouxe uma ideia comsigo, deante da qual Procopio Dias chegou a recuar. Esse ideia era envenenar na propria origem a affeição recente; nada menos que denunciar a madrasta á enteada. Se alguma cousa pudesse attenuar a perversidade de semelhante recurso, era a persuasão que elle tinha de que diria a verdade. Cria deveras no amor secreto dos dous; com algum esforço poderia fazer suppôr que o casamento da filha de Luiz Garcia era uma suggestão da madrasta. Elle proprio achava essa combinação verosimil, conveniente, reparadora.

—Maganão! a duas amarras! dizia o pretendente em tom surdo.

A occasião veiu. Um pouco irritada com a assiduidade de Procopio Dias e a confiança que parecia renascer nelle, Yayá assentou de lhe dizer francamente que estava prestes a casar. Procopio Dias empallideceu. Suppunha apenas provavel o que era já definitivo. Olhou longamente para ella; a extincção da esperança não implicava a extincção do desejo; pela contrario, vinha pungil-o e açulal-o. Seus olhos mostraram então duas expressões diversas; a primeira involuntaria, a mesma com que os dous velhos de Israel espreitavam a filha de Helcias, um olhar terreno e mau; a segunda voluntaria, não de queixa, não de supplica, mas de lastima. A ideia ruim tornava a arder-lhe no cerebro.

—Não sabia, disse elle, depois de curta pausa. Com quem?

—Com o Dr. Jorge.

—Ah!

Procopio Dias riu com a testa, e tornou a deitar-lhe um olhar de lastima.—Pobre moça! murmurou elle entre dentes. Yayá fitou-o severamente; depois, sorriu e perguntou com alguma ironia:

—Não approva a escolha?

—A escolha é excellente, disse elle; mas ha circumstancias que fazem do optimo pessimo. Ouça-me; a senhora sabe que eu a amei; suppõe talvez que já não a amo e engana-se; amo-a como no primeiro dia. Tive ideia de casar com a senhora; perdi a ideia, mas guardei o sentimento. Talvez isso lhe diminua a sinceridade das minhas palavras; mas eu cedo á voz da consciencia, sem calcular com a sua approvação...

Fez uma pausa.