—Acabe, disse a moça.
—Ha cousas que um coração inexperiente não pode entender; cousas que talvez se lhe não devam referir. Quer um conselho? não acceite o casamento; desfaça-o, não para casar commigo, mas desfaça-o.
Yayá fez-se pallida. Procopio Dias, pasmado do proprio arrojo, comprehendeu que havia ido muito longe naquellas poucas palavras; mas já não havia meio de as explicar de modo verosimil. Como se fizesse um monologo interior, abanava a cabeça ou levantava a ponta do labio, emquanto os olhos, perdidos no ar, tinham o aspecto vitreo das fortes concentrações. Yayá olhou para elle atonita e confusa: não sabia o que pensasse, não podia ou não queria entender. Afinal, collingido todas as forças, perguntou audazmente porque motivo lhe cumpria desfazer o casamento.
—Qualquer que seja o motivo, disse elle, não lhe aconselho que o acceite logo como decisivo. Reflicta antes de resolver; a responsabilidade será sua, do mesmo modo que o beneficio ha de ser seu. Meu conselho é que o desfaça.
—Porque muitas vezes o casamento é... é uma mascara, uma... Seu noivo ama a outra pessoa... Que tem?
Yayá fizera-se livida. Terror, indignação, abatimento, sua alma passou por todos esses estados, padeceu-os até simultaneamente, sem que a boca achasse uma só palavra de resposta ou de protesto. A delação fulminara-a; nunca Procopio Dias chegou a comprehender o motivo de tamanho e tão subito effeito. O effeito aterrou-o em parte, e em parte o consternou; alguma fibra lhe ficara intacta, no meio da decomposição moral de todo o seu ser, essa bastou a resentir o golpe que elle mesmo vibrara.
—Outra... Que outra? balbuciou Yayá segurando-lhe um dos braços.
Procopio Dias abanou a cabeça solemnemnte, como a dizer que não podia ir mais longe. A esse gesto seguiu-se um silencio largo, durante o qual a moça pode vencer a primeira commoção e reflectir sobre o que lhe convinha entender.
—Ama a outra? disse ella. Quem quer que seja essa rival, já agora o noivo é meu; e é natural que me ame mais do que a ella, visto que prefere casar commigo...
Não obstante a firmeza que procurava dar á palavra, a palavra era difficil e a voz parecia morrer-lhe na garganta. Procopio Dias comprehendeu que a commoção estava apenas dominada, e que o veneno penetrara abaixo da epiderme. Era a primeira vez que lhe via esse aspecto dolorido; antes de embarcar, conhecia-a menina caprichosa; depois do regresso, achou-a senhora reflectida; naquella occasião, a dor, occulta embora, como que lhe dava um encanto mais. Effectivamente o rosto de Yayá trahia o estado do coração; os olhos não correspondiam ao esforço que ella fazia para os fixar.