—Já tem falado muito, interrompeu Estella, descance, não quero que diga mais nada.
Luiz Garcia pediu ainda á mulher e á filha que se amassem como até alli. Tinha falado excessivamente; ficara abatido. D'alli em deante, a morte não fez mais do que apoderar-se, trecho a trecho, da sua victima. Já a noite d'esse dia foi mais cruel que as anteriores; todo o seguinte dia foi de angustia para as duas mulheres. Na manhã do outro começou a agonia d'elle, que durou algumas horas.
Ao vel-o morrer, as duas mulheres ficaram longo tempo prostradas. Era a primeira vez que contemplavam a morte. Nenhuma d'ellas vira nunca expirar uma só creatura humana, e a primeira que a seus olhos se despedia da vida representava para ellas largos annos de affeição terna e profunda, e o mais forte laço moral que as ligava uma a outra. N'esse instante solemne, abraçaram-se sem reflexão; a dor impelliu-as com a mão de ferro, e, madrasta e enteada confundiram alli suas nobres, tristes e inuteis lagrimas.
Aos pés da cama, com o gesto dolorido, Jorge via a afflicção duas das mulheres, sem lhes poder nem querer valer. Quanto a Raymundo, não pode ver expirar o senhor; correu ao jardim, onde ficou longo tempo sentado no chão, com a cabeça encanecida entre os joelhos, sacudido pela violencia dos soluços.
[XVI]
A morte de Luiz Garcia foi uma complicação mais. Passados os primeiros dous mezes, Jorge pensou em realisar o casamento, sem apparato, como um simples acto de interesse domestico, aliás necessario pela situação em que se achavam as duas senhoras. O Sr. Antunes fora morar com ellas, e era o chefe natural da familia; mas Jorge não esquecera que Luiz Garcia nenhuma confiança tinha na pessoa do sogro; demais, entregara directamente a Jorge a chefia da casa. Ora, cumpria legalisar e sanctificar a designação do moribundo.
Mas, se isto lhe parecia claro e necessario, não se atrevia ainda assim propôl-o á noiva, e por duas razões. A primeira era o natural respeito á dor da filha, que elle podia magoar ainda mais falando-lhe desde logo no casamento. Era a segunda a frieza e o silencio com que esta o tratava depois da morte do pae. A differença era positiva e inexplicavel; mas a boa fé explica tudo, e Jorge attribuiu essa nova feição da moça ao profundo golpe que o desastre lhe desfechara. Sabia da paixão filial de Yayá; era testemunha dessa adoração constante, que parecia contar com a eternidade da vida.
A ideia de falar a Estella apenas lhe passou pela mente; rejeitou-a sem esforço. Limitou-se a esperar, e ia alli com a assiduidade que lhe permittia a condição de noivo. Ia ás noites, não todas; passava uma ou duas horas, a atar e desatar uma conversação frouxa, muita vez sem interesse. Sobre todos tres, mas principalmente sobre as duas, pesava ainda a lembrança do finado. O Sr. Antunes tomava parte nessas conversações intimas, e era elle quem forcejava por lhes dar a perdida animação; temperava-a com algum dito folgazão, ouvido com indifferença, quando não com tedio. Posto que o casamento de Jorge com a enteada da filha estivesse tratado, elle nutria a esperança de que alguma cousa o viria desfazer, e nessa carta incerta jogava todo o futuro.
Uma noite, Jorge propoz directamente a Yayá a necessidade de apressar o casamento.
Não sendo a ceremonia publica, disse elle, não daremos que falar aos outros, se alguma cousa ha que falar...