Raymundo, chamado para levar essa carta, recebeu-a depois de alguma hesitação. Olhou para o papel e para a sinhá moça. Depois sacudiu a cabeça com um ar de duvida. Yayá simulou não ver nada, mas o gesto do preto impressionou-a. Ia affastar-se, Raymundo reteve-a dizendo:

—Yayá me desculpe... esta carta... Raymundo não gosta de falar áquelle homem.

—Não lhe fales; basta deixar a carta em casa delle.

Raymundo não insistiu; acompanhou com os olhos a filha de seu antigo senhor, abanando a cabeça com o mesmo ar de alguns momentos antes. Depois olhou para a carta, como se quizesse adivinhar o que ia dentro. Não era só presentimento, mas tambem deducção do que elle via naquellas ultimas semanas. Tinham-lhe dado noticia do casamento; falara-se nisso todos os dias antes da morte de Luiz Garcia. Morto este, cessou toda a allusão ao projecto, que parecia dever executar-se dentro de pouco tempo. O coração do preto dizia que aquella carta era alguma cousa mais do que um recado sem consequencia. Quiz leval-a a Estella; mas rejeitou o expediente, por lhe parecer infidelidade. Dez minutos depois saiu em direcção á casa de Procopio Dias.

Entretanto, chegavam ás mãos de Estella o bilhete de Jorge e o de Yayá. A viuva não podia crer o que lera. A carta da enteada era um acto de insubordinação, inexplicavel na essencia e na forma: e se essa carta a fez pasmar, a de Jorge fel-a gemer. O noivo desenganado recorria á intervenção de Estella. A primeira amada desse homem era agora a sua confidente, a quem elle escrevia sem saudade, sem remorso, talvez sem hesitação.

—Sogra! concluiu Estella com amargura; e erguendo os olhos do papel para o espelho, que pendia da parede fronteira, contemplou caladamente as suas graças ainda em flor. Yayá entrou nessa occasião. A madrasta chamou-a ao pé de si, e mostrando-lhe o bilhete que escrevera ao noivo, perguntou-lhe o que queria dizer aquillo. A enteada ficou silenciosa durante alguns segundos; mas a resolução deu-lhe força e tranquillidade.

—Quer dizer o que ahi está escripto, respondeu ella; não posso casar com o Dr. Jorge.

—Porque?

—Não posso.

—Porque? repetiu Estella com autoridade.