—Antes do almoço, respondeu o Sr. Antunes, cujo olhar forcejava por soletrar no rosto de Jorge algumas linhas do drama que suppunha haver lá dentro.
—Não lhe parece que Yayá anda triste? perguntou Jorge no fim de um minuto.
—A morte do pae prostou-a muito.
Jorge foi dalli ao gabinete; o Sr. Antunes acompanhou-o. A preoccupação do moço era uma chuva benefica ás esperanças do pae de Estella, que todas pareciam reflorir. Como este falasse da filha com a prolixidade astuta do pretendente, Jorge attentou n'uma ideia, que a principio lhe pareceu absurda, mas com a qual se familiarisou a pouco e pouco; mordeu-lhe o coração a suspeita de que o procedimento de Yayá era uma desforra de Estella, uma como vingança posthuma. O inexplicavel da carta podia justificar até certo ponto essa suspeita sem fundamento nem verosimilhança, que afinal acabou por não achar nenhuma repulsa na consciencia delle.
Duas horas depois Jorge escrevia estas poucas palavras á viuva de Luiz Garcia:
«Yayá mandou-me ha pouco o incluso bilhete. Peço-lhe o favor de uma explicação.»
A carta de Yayá fora escripta naquella manhã, depois de uma noite de agitação e luta. Nem foi a unica. Yayá escrevera outra, menos laconica, a Procopio Dias. Morto o pae, esse homem fora alli tres vezes, sem trocar com a moça uma só palavra relativa á extranha confidencia que lhe fizera antes. Eram visitas de meia hora, não mais; durante esse curto lapso de tempo, Procopio Dias não discrepava um instante da gravidade um pouco triste que adoptara. Não era o folgasão primitivo, mas tambem não era um poeta desesperado e pallido; ficava a egual distancia de um e outro modelo. Os acontecimentos pareciam aconselhar-lhe uma discreta ausencia; mas, além de não ter melindres nem escrupulos, floria-lhe no peito a esperança, a esperança tenaz dos cabiçosos. Não a sussurrava ao ouvido da moça, nem a ostentava nos olhos, na compostura, nos meneios, todos elles impregnados da submissão de uma alma desenganada e passiva. Yayá tratava-o com bondade, já agora mais constante; posto não lhe passasse pela cabeça a ideia de vir a desposal-o, não lhe destoava o aspecto dessa paixão resignada e muda.
Depois de soltar a palavra decisiva, Yayá entendeu que lhe devia dar a forma ultima, desligando-se da solemne promessa. Não o fez sem muita lagrima solitaria. A pobre creança amava o filho de Valeria com a singeleza de um coração quasi adolescente, e só então mediu todo o imperio que elle adquirira sobre ella. Mas duas circumstancias a induziam ao desfecho; era a primeira a revelação de Procopio Dias, confirmação de suas suspeitas; a segunda foi o espectaculo que se lhe offereceu aos olhos, naquella noite, logo depois de se despedir do noivo. Sabendo que a madrasta estava no gabinete do pae, alli foi ter e espreitou pela fechadura; viu-a sentada com a cabeça inclinada ao chão, desfeito o penteado, mas desfeito violentamente, como se lhe mettera as mãos em um momento de desespero, e caindo-lhe o cabello em ondas amplas sobre a espadua, com a desordem da peccadora evangelica. Yayá não a viu sem que os olhos se humedecessem.
—Que se casem! disse a moça resolutamente.
Desligando-se da promessa feita, Yayá reflectiu que ia ficar só, e que precisava forçosamente de um amparo; foi então que lhe lembrou Procopio Dias. Não encarou a ideia sem repugnancia; acceitavel na palestra, Procopio Dias era-lhe antipathico para a convivencia conjugal. Não o podia amar, e, uma vez resoluta a acceital-o, começou logo de o aborrecer. Que muito? Era um marido; não exigia outro merito. A carta que lhe escreveu não saiu de um jacto, foi trabalhada e repizada; o texto definitivo dizia que fosse alli sem demora para lhe falar de objecto que interessava á felicidade de ambos. Isto, e nada mais que uma lagrima, que lhe resvalou dos cilios no papel como um protesto contra o que ia nelle escripto.