—Se o não amo! disse vivamente a moça deitando os olhos ao ceu, como a tomal-o por testemunha da sinceridade de seu coração; mas logo depois arrependeu-se e continuou de um modo compassado e frio.—Amei-o; não importa saber se muito ou pouco, mas amei-o. O senhor foi a primeira pessoa que me fez bater o coração de um modo differente do que elle batia; foi a primeira pessoa que me disse palavras novas, que me fizeram bem...
Jorge lançou-lhe o braço a cintura e conchegou-a ao coração.—Pois sim, disse elle; eu repetirei essas palavras em todo o resto da nossa vida. Seja boa, e sobretudo seja franca. Para que ha de negar o que se está vendo? Eu sei que ainda me ama...
—Eu? disse a moça deslaçando-se-lhe dos braços. Eu tenho-lhe horror.
Jorge sorriu.—Horror, por que? disse elle. Mas o gesto da moça veiu apagar-lhe o sorriso começado. Yayá levara as mãos ao seio, como se quizera conter os impetos do coração; os olhos luziam-lhe de extraordinario fulgor. Offegante, por alguns minutos, não pode articular uma só palavra; quando chegou a falar disse simplesmente:
—Que razão ha agora para que nos casemos? E depois de uma pausa:—Tenho ciumes do passado, e o senhor amou já uma vez. Assim como eu ia entregar-me ao senhor, com o coração limpo de qualquer outro affecto, assim quizera que o senhor nunca houvesse amado a ninguem. Que é o seu coração para mim? Um sobejo de outra; talvez nem isso; esse mesmo resto não me pertence, não é meu; fiquemos neste ponto, e tome cada um de nós a sua liberdade.
Yayá recusou outra explicação, aliás desnecessaria; a linguagem era transparente. Jorge saiu dalli com o espirito transtornado e confuso. O motivo da recusa, para ser sincero, era pueril ou romanesco demais; nenhuma noiva teve ciumes de um amor anonymo e extincto; logo, a allusão de Yayá não era vaga e sem objecto, mas ia direito á pessoa de Estella. Seria isso? Jorge não queria crer e mal podia duvidar.
No dia seguinte, acabado o almoço, appareceu-lhe o pae de Estella.
—Yayá manda-lhe isto, disse elle saccando da algibeira uma carta.
Jorge recebeu-a presurosamente e abriu-a; leu estas palavras unicas:—«Não posso ser sua mulher; esqueça-me e seja feliz.» Empallideceu; tornou a ler a carta, sem a entender, posto que ella não fosse mais do que a formula escripta e secca do que Yayá lhe dissera na vespera. Mas entre as queixas e effusões de uma hora de desanimo e aquella intimação, havia um abysmo; a carta trazia o cunho da resolução definitiva, que elle não achara ou não quizera achar nas declarações verbaes da moça.
—Yayá deu-lhe isto agora mesmo?