—Essa moça era a senhora? murmurou ella como se ainda esperasse resposta negativa.
—Era eu.
Yayá deixou-se cair n'uma cadeira raza, a mesma em que Estella estivera sentada, quando ouviu a confidencia do marido.
—Vês? disse Estella; foi por mim que elle fez o sacrificio de ir para a guerra, sem esperança de ser retribuido nem de contar um dia com a minha gratidão. Foi para a guerra, lutou, padeceu, fiel ao sentimento que o tinha levado, até o ponto de o crer eterno. Eterno! Sabes quanto durou essa eternidade de alguns annos. É duro de ouvir, minha filha, mas não ha nada eterno neste mundo; nada, nada. As mais profundas paixões morrem com o tempo. Um homem sacrifica o repouso, arrisca a vida, affronta a vontade de sua mãe, rebella-se, e pede a morte; e essa paixão violenta e extraordinaria acaba ás portas de um simples namoro, entre duas chicaras de chá...
—A senhora não o amou nunca? interrompeu Yayá, ao sentir o tremor e o despeito com que a madrasta proferira as ultimas palavras.
—Havia entre nós um fosso largo, muito largo, disse Estella. Eu era humilde e obscura, elle distincto e considerado; differença que podia desapparecer, se a natureza me houvesse dado outro coração. Medi toda a distancia que nos separava e tratei simplesmente de evital-o. Foi então que elle embarcou; interiormente approvei-o. Talvez lhe não neguei um pouco de compaixão silenciosa, mas nada mais. Casamento entre nós, era impossivel, ainda que todos trabalhassem para elle; era impossivel, sim, porque o consideraria uma especie de favor, e eu tenho em grande respeito a minha propria condição. Meu pae já me achava, em pequena, uns arremeços de orgulho. Como querias tu que, com tal sentimento, pudesse desposar um homem, socialmente superior a mim? Era preciso dar-me outra indole. Todas as felicidades do casamento achei-as ao pé de teu pae. Não nos casamos por amor; foi escolha da razão, e por isso acertada. Não tínhamos illusões; pudemos ser felizes sem desencanto. Teu pae não tinha os mesmos sentimentos que eu; era mais timido que orgulhoso. Qualquer que fosse a razão do seu desapego ao mundo, bastava que o tivesse, para me fazer feliz; vivemos assim alguns annos de inteiro isolamento, sem conhecer o amargor, que é o que fica no fundo da vida, sem necessidade da dissimulação... Minto; tive necessidade de fingir, desde que aquelle homem aqui appareceu; era necessario. Um dia teu pae mostrou-me essa carta e referiu-me a paixão encoberta que ahi se conta; podes imaginar se ouvi tranquilla. Mas fóra desse acontecimento, que outro podia perturbar minha alma? Não vi nenhuma porta abrir-se-me por obsequio, nenhuma mão apertou a minha por simples condescendencia. Não conheci a polidez humilhante, nem a afabilidade sem calor. Meu nome não serviu de pasto á natural curiosidade dos amigos de meu marido. Quem é ella? donde veiu? Ninguem me perguntou donde vinha, não é verdade? Perguntaste-me quem era eu? Não; amaste-me como tinhas amado tua mãe, e eu amei-te, como se foras minha filha. E para isso bastou-nos estender os braços; não foi preciso descer nem subir.
—Não foi, bradou Yayá commovida, apertando-lhe as mãos.
—Já vês quem eu era e sou; uma especie de animal feroz, que prefere a charneca ao jardim. Não me senti lisongeada com a paixão que inspirei; rejeitei, talvez, um marido digno das ambições de qualquer mulher. Era isto o que querias saber? Pois ahi tens a minha historia, a historia, dessa carta, que já agora podemos rasgar...
Estella pegou na carta e rasgou-a lentamente, em pedaços miudos, emquanto a enteada reflectia nas revelações que acabava de ouvir. A madrasta deitou os fragmentos do papel á cesta.
—Resta concertar a imprudencia e casar, disse Estella dando á palavra um tom galhofeiro.