Luiz Garcia parou e encarou silenciosamente o mancebo.

—Sei o que quer dizer esse olhar, continuou este; acha-me feroz, e eu sou apenas natural. O sentimento mau teve só um minuto de duração. Passou. Ficou-me uma sombra de remorso. Não accuso mamãe; sei as lagrimas que lhe vae custar a separação...

—Ainda é tempo de recuar.

—O que está feito, está feito, disse Jorge erguendo os hombros.

—Sabe que mais? Acho mau gosto dar a este negocio um desenlace epico. Que tem que fazer nisto a guerra do Paraguay? Vou suggerir-lhe um meio de arranjaras cousas. Ceda metade sómente; vá á Europa sósinho, volte no fim de dous ou tres annos...

Jorge sorriu desdenhosamente.

—Seu conselho mostra a differença de nossas edades, disse elle. Se eu fosse para a Europa, que sacrificio faria á pessoa a quem amo? Pelo contrario, a sacrificada era ella. Eu ia divertir-me, passear, ver cousas novas, talvez achar novos amores. Indo á guerra, é differente; sacrifico o repouso e arrisco a vida; é alguma cousa. Separados, embora, não me negará sua estima...

—Sua estima? disse Luiz Garcia admirado.

Não continuou; mas Jorge comprehendeu, por aquella só palavra, a que classe de mulheres elle suppunha pertencer a eleita de seu coração. Fez um gesto; não se animou a dizer nada. Arrependeu-se talvez de haver dito tanto. Sem ousar recommendar-lhe silencio, começou a insinual-o delicadamente; tactica escusada, porque Luiz Garcia não era homem de revelar o que se lhe confiava; e perigosa, porque fazia crescer as proporções do mysterio. Luiz Garcia sorriu interiormente ao sentir a arte cautelosa de Jorge; e quando ella lhe pareceu enfadonha:

—Descance, disse elle; não receie que eu vá publicar seus amores. Repito-lhe o conselho: não se atire de cabeça para baixo n'uma aventura sem fundo. Ir para a guerra é muito nobre, mas hade ser levado de outros sentimentos. Um desaccordo por motivo de namoro, não é o Porto Alegre nem o Polydoro, é um padre que lhe deve pôr termo.