Estella baixou silenciosamente a cabeça e buscou dar outra volta para entrar na sala ao pé; Jorge, porém, interceptou-lhe de novo o caminho.
—Deixe-me passar, disse ella sem colera nem supplica.
Jorge recuara até a porta, unica das tres que estava aberta. Era arriscado o que fazia; mas, além de que Valeria e o mestre estavam no pavimento superior,—elle ouvia-lhes os passos,—perdera naquella occasião toda a lucidez de espirito. Era deserto o logar, e naturalmente seria longo o tempo de que poderia dispôr para lhe dizer tudo. Mas os labios ficaram cerrados alguns instantes, em quanto os olhos diziam a eloquencia da paixão mal contida e prestes a irromper.
Não insistiu Estella, mas ficou diante delle, quieta e sem arrogancia, como esperando ser obedecida. Jorge quizera-a supplicante ou desvairada; a tranquillidade feria-lhe o amor proprio, fazendo-lhe ver que o perigo era nenhum, e revellando, em todo caso, a mais dura indifferença. Quem era ella para o affrontar assim? Era a segunda vez que formulava essa pergunta; tinha-a feito nas primeiras auroras da paixão. Desta vez a resposta foi deploravel. Cravando os olhos em Estella, disse com voz tremula, mas imperiosa:
—Não ha de sair daqui, sem me dizer se gosta de mim. Vamos; responda! Não sabe o que lhe pode custar esse silencio?
Não obtendo resposta, continuou depois de alguma pausa:
—É animosa! Saiba que posso vir a odial-a e que talvez já a odeio; saiba tambem que posso tirar vingança de seus despresos, e chegarei a ser cruel, se fôr necessario.
Estella suspirou apenas, e foi encostar-se ao parapeito, a olhar para a chacara. Era sua intenção não irrital-o, com a resposta secca e má que lhe dictava o coração, e esperar que Valeria descesse. Entretanto, na posição em que ficara tinha as costas voltadas para Jorge, circumstancia que não era intencional, mas que pareceu a este um simples meio de lhe significar o seu desdem. A irritação de Jorge foi grande. Após uns dous ou tres minutos de silencio, Jorge caminhou na direcção do parapeito, onde estava Estella, com a cabeça inclinada, a beijar a cabeça dos pombos, que tinha encostados ao seio. Deteve-se, sem que a moça mudasse de posição. Contemplou-a ainda um instante, e se Estella olhasse para elle veria que a expressão dos olhos era de respeitosa ternura e nada mais.
Esse instante, porém, voou depressa, e com elle a consideração. Inclinando-se para a moça, Jorge falou de um modo que nem a educação nem a indole, mas só o despeito explicava.
—Porque hade gastar com esses animaes, uns beijos que podem ter melhor emprego?