Estella estremeceu toda e ergueu para o moço uns olhos que fuzilavam de indignação. Já não estava pallida, mas livida. Estupefacta, não sabia que dissesse ou fizesse, e infelizmente não sabia tambem que a pergunta de Jorge, por mais offensiva que lhe parecesse, não era ainda a maxima injuria. Não era; Jorge tinha uma nuvem deante de si, atravez da qual não podia ver nem o seu decoro pessoal nem a dignidade da mulher amada; via só a mulher indifferente. Lançou-lhe as mãos treabeça, puxou-a até si e antes que ella pudesse fugir ou gritar, encheu-lhe a boca de beijos.

Soltos com o movimento, os pombos esvoaçaram sobre a cabeça de ambos, e foram pousar outra vez na casinha de pau, onde nenhuma fatalidade moral os condemnava áquelle amor sem esperança, áquella colera sem dignidade.

Estella suffocara um gemido e cobrira o rosto com as mãos. Ouviam-se as vozes de Valeria e do mestre, que se approximavam; Jorge teve um instante de incerteza e hesitação; mas a reacção operara-se, e, além disso, urgia apagar os vestigios daquella scena, de maneira que os não visse a viuva.

—Ahi vem mamãe,—disse elle baixinho a Estella; não tive culpa no que fiz, por que gosto muito da senhora.

Estella voltou-se para fora e enxugou o rosto; dahi a pouco entraram Valeria e o mestre. Este saiu logo depois, tendo ajustado as obras que era indispensavel fazer na casa. Valeria irritada com a vista dos estragos que encontrou, criticava o desleixo dos inquilinos. Só depois dos primeiros instantes reparou que nenhum dos dous lhe respondia nada, Jorge parecia acanhado, e Estella triste. Posto houvesse enxugado as lagrimas, Estella tinha o rosto desfeito e murchos os bellos olhos. Jorge não ousava olhar para a mãe nem para Estella; olhava para a ponta dos botins, onde ficara um pouco da caliça do parapeito; tinha as mãos nas costas e estava arrimado a um portal. Valeria reparou na attitude dos dous; mas como possuia a qualidade de dissimular as impressões, não alterou nem o gesto nem a voz. Os olhos é que nunca mais os deixaram.

Dahi a nada metteram-se no carro. Era tarde. A viagem foi quasi inteiramente silenciosa; pelo menos, só Valeria disse algumas palavras. Chegando á rua dos Invalidos, a viuva suspeitava que alguma cousa havia entre os dous e grave. Todo aquelle dia meditou nos meios de conhecer a natureza e os pormenores da situação, e nada achou melhor do que interrogar directamente um delles. Jorge saíra de casa logo depois e não voltou para jantar; Estella não sorriu em todo esse dia e quasi não falou.

Não foi preciso interrogal-a. Logo na seguinte manhã, acabando de levantar-se, entrou-lhe Estella na alcova, e pediu alguns minutos de attenção. Expoz-lhe a necessidade de voltar para casa; estava moça, devia ir prestar ao pae os serviços que elle precisaria de alguem e tinha o direito de exigir da filha. Não era ingratidão, accrescentava; levaria dalli saudades eternas; voltaria muitas vezes; seria sempre obediente e grata. Cedia sómente á necessidade de acompanhar o pae. Este pedido confirmava a suspeita de Valeria, mas só esclarecia metade da situação. A retirada de Estella era um meio de fugir a Jorge ou de lhe falar mais livremente? Valeria tratou de prescrutar o coração da moça, dizendo-lhe que a razão dada era insufficiente e que alguma causa occulta a movia; depois, recordou-lhe a amizade que lhe tinha e a confiança a que Estella não devia faltar.

—Vamos lá, disse ella; confessa tudo.

Estella affirmou que nada mais havia; mas, insistindo a viuva, respondeu curvando a cabeça,—o que importava meia confissão. Valeria lutou ainda muito tempo; empregou a brandura e a intimação, mas a moça não cedeu mais nada.

—Bem, disse a viuva; faça-se a tua vontade.