«Meu amor não sabe já o que seja impaciencia ou ciume ou exclusivismo: é uma fé religiosa, que pode viver inteira em muitos corações. Talvez o senhor me não comprehenda. Os homens graves ficam surdos a estas subtilezas do coração. Os frivolos não as entendem. Eu mesmo não sei explicar o que sinto, mas sinto alguma cousa nova, uma saudade sem esperança, mas tambem sem desespero: é o que me basta.»
Jorge releu o escripto, e ora o achava claro de mais, ora obscuro. Hesitou ainda algum tempo; emfim, dobrou a carta, fechou-a e remetteu-a para o Rio de Janeiro.
Quando a resposta lhe chegou ás mãos, preparava-se o exercito para deixar Tuyuty. Jorge estava todo entregue aos cuidados da guerra, a sonhar batalhas, a acutilar mentalmente os soldados de Lopez. A resposta de Luiz Garcia dizia pouco ou nada do objecto da carta de Jorge; compunha-se quasi toda de conselhos e reflexões, dadas em linguagem sobria e medida, reflexões e conselhos relativos quasi exclusivamente aos deveres de homem e de soldado.
Jorge esperava aquillo mesmo; conhecia, ainda que pouco, o genio sêcco e gelido de Luiz Garcia. Comtudo, ficou momentaneamente desapontado e triste. Seria certo que nenhum coração sympathisava com seus secretos infortunios ou suas venturas solitarias? Ao cabo de largos mezes de separação, nem Estella pensaria nelle, nem elle achava pessoa com quem partisse o pão das saudades, ultimo alimento de um amor sem conjuge. A consciencia da solidão moral abateu-o um instante; esvaiu-se-lhe toda a força accumulada durante aquelles mezes, e a alma caiu de bruços.
Poucos dias depois operou-se a marcha de Tuyuty a Tuyu-Cué, a que se seguiu uma serie de acções e movimentos, em que houve muita pagina de Plutarcho. Só então pode Jorge encarar o verdadeiro rosto á guerra, a cujo principio não assistira; figurou em mais de uma jornada heroica, correu perigos, mostrou-se valoroso e paciente. O coronel adorava-o; sentia-se tomado de admiração deante daquelle mancebo, que combatia durante a batalha e calava depois da victoria, que communicava o ardor aos soldados, não recuava de nenhuma empreza, ainda a mais arriscada, e a quem uma estrella parecia proteger com suas azas de luz.
Notou elle uma vez, em um dos combates mortiferos de Dezembro de 1868, anno e meio depois da carta de Luiz Garcia, que a temeridade do mancebo parecia ir além dos limites do costume, e que em vez de um homem que combatia, era elle um homem que queria morrer. A fortuna salvou-o. Findo o combate, recolhidos os feridos, repousados os corpos, o coronel foi ter com elle na barraca, e achou-o tristemente quieto, com os olhos inchados e parados. O coronel não reparou nisso; entrou a felicital-o pelo comportamento que tivera, ainda que um pouco excessivo. Jorge tinha-se respeitosamente erguido e olhava para o coronel sem dizer palavra. Este encarou-o e viu-lhe signaes de abatimento.
—Que diabo tem você, capitão?
—Nada, respondeu o moço.
—Recebeu hontem cartas do Rio de Janeiro?
—Uma: de minha mãe.