—A senhora podia casar-se com papae, disse a menina depois de olhar algum tempo para a outra.
Estella teve novo sobresalto, mas dessa vez era só espanto. Como Yayá a abraçasse pela cintura, ella inclinou o rosto sobre o rosto da menina, e perguntou sorrindo:
—Tinhas muita vontade de ser minha enteada?
—Tinha.
Estella abanou a cabeça, com um gesto, não de negativa, mas de incredulidade. Já conhecia alguma cousa do caracter de Luiz Garcia; rigorosamente era um esposo acceitavel. Via nelle um homem de affeições placidas, mediocres, mas sinceras. Via-o respeitoso sem abatimento, polido sem affectação, falando pouco, mas com alguma ideia, em todo o caso com muita opportunidade, vivendo emfim para si e para a filha. De tudo o que observara concluia que a sobriedade era a lei moral desse homem, e que á taça da vida não pedia mais do que alguns goles, poucos. Que importa? A vida conjugal é tão sómente uma chronica; basta-lhe fidelidade e algum estylo. Com quanto houvesse algumas semelhanças entre ambos, havia tambem differenças, mas Estella podia fiar do tempo, que ajusta os contrastes. E, não obstante, se o marido era acceitavel, não lhe parecia que fosse possivel. A gravidade exterior como que o rodeava de uma atmosphera impenetravel.
Yayá não insistiu; mas dous ou tres domingos depois, estando todos na chacara, interrompeu a conversa geral para perguntar a Estella se deveras lhe tinha affeição.
—Ja disse que sim, acudiu Estella.
—Mas gosta muito de mim?
—Muito, repetiu Estella prolongando a primeira syllaba.
—Porque não vem morar commigo?