A vida de Jorge foi então dividida entre o estudo e a sociedade, á qual cabia sómente uma parte minima. Estudava muito e projectava ainda mais. Delineou varias obras durante algumas semanas. A primeira foi uma historia da guerra, que deixou por mão, desde que encarou de frente o monte de documentos que teria de compulsar, e as numerosas datas que seria obrigado a colligir. Veiu depois um opusculo sobre questões juridicas e logo duas biographias de generaes. Tão depressa escrevia o titulo da obra como a punha de lado. O espirito soffrego colhia só as primicias da ideia, que aliás entrevia apenas. Uma vez, uma só vez, lembrou-se de escrever um romance, que era nada menos que o seu proprio; ao cabo de algumas paginas, reconheceu que a execução não correspondia ao pensamento, e que não saía das effusões lyricas e das proporções da anedocta.

Quando mais disposto se achava a compor essa autobiographia, occorreu vagar a casa da Tijuca, a mesma aonde fora uma vez com sua mãe e Estella, ponto de partida dos successos que lhe transformaram a existencia. Quiz vel-a novamente; talvez alli achasse uma fonte de inspiração. Foi; achou-a quasi no mesmo estado. Entrou curioso e tranquillo. Pouco a pouco sentiu que o passado começava a reviver; a resurreição foi completa, quando penetrou na varanda, em que da primeira vez achara o casal de pombos, solitario e esquecido. Já lá não estavam as pobres aves! Tinham voado ou morrido, como as esperanças delle, e tão discretamente que a ninguem revelaram o desastrado episodio. Mas as paredes eram as mesmas; eram os mesmos o parapeito e o ladrilho do chão. Jorge encostou-se ao parapeito, onde estivera Estella, com os pombos ao collo, diante delle, naquella fatal manhã. O que sentia nesse outro tempo, posto frisasse o amor, tinha ainda um pouco de estouvamento juvenil. Comtudo, a vista das paredes nuas e frias da varanda abria-lhe na alma a fonte das sensações austeras, e elle tornou a ver os olhos férvidos e o rosto pallido da moça; pareceu até escutar-lhe o som da voz. Viu tambem a sua propria violencia; e, como em meio de tantas vicissitudes, trazia ainda a consciencia integra, a recordação fel-o estremecer e abater. Jorge fincou os braços no parapeito e fechou a cabeça nas mãos.

—Olá, senhor dorminhoco! São horas de almoçar.

Jorge ergueu vivamente a cabeça e olhou para a chacara, donde lhe pareceu que saíra a voz. Na chacara, a vinte passos de distancia, estava um homem, que sorria para elle, com as mãos nas costas, seguras a uma grossa bengala. Jorge sentiu um calefrio, como se lhe descobrissem o segredo do passado. Só depois de desfeita a primeira sensação, respondeu sorrindo:

—Não durmo; estou pensando nos alugueis.

—Muda-se para aqui?

—Não.

—A casa é sua?

—É. Suba cá.

O homem galgou os seis degraos da escada de tijolo e entrou na varanda, onde Jorge assumira exclusivamente o papel de proprietario, olhando attentamente para as paredes do edificio.