—Desta vez hade obedecer-me, interrompeu Jorge com brandura; falemos de outra cousa.

—Sim; falemos de minha mulher. Saiba que rematou dignamente a obra de sua mãe; e mais uma vez me fez comprehender o beneficio do casamento. Logo depois de casado, propoz-me acceitar, em favor de minha filha, a parte com que a Sra. D. Valeria lhe manifestara sua affeição. Gostei de a ouvir, por que era signal de desinteresse, mas recusei, e recusei sem efficacia. Cedi, emfim; e não podia ser de outro modo. Folgo de lhe dizer essas cousas porque são raras...

Jorge fechou o rosto ao ouvir essas palavras de Luiz Garcia. Adivinhara a causa do desinteresse de Estella.—Eterno orgulho! pensou elle. Depois reflectiu no caso e perguntou a si mesmo se a moça teria confiado ao marido alguma cousa do que se passara entre elles. Era difficil percebel-o, mas não era acertado suppôl-o. Nenhuma mulher o faria nunca, Estella menos que nenhuma outra. Interrogou o rosto de Luiz Garcia; achou-a placido e immovel. Após alguns segundos de silencio, estendeu-lhe a mão.

—Permitte-me então que o felicite? disse elle.

—De coração, acudiu Luiz Garcia. E depois de erguer-se:—Se eu tivesse o sestro de dar conselhos, dir-lhe-hia que se casasse.

—Póde ser.

—Não lhe pergunto pela outra paixão; creio que a esqueceu de todo.

—De todo.

Luiz Garcia apertou-lhe cordialmente a mão e saiu, depois de lhe offerecer a casa. Jorge ficou alguns instantes pensativo. A noticia do dote de Estella causara-lhe certo vexame; a noticia da doação feita pela moça em favor da enteada, produzia-lhe agora um sentimento mesclado de admiração e despeito. Ella sentia arder no mais fundo do coração da moça um residuo de odio, e em seu proprio coração não podia deixar de approvar o acto.

Sendo forçosa pagar a visita a Luiz Garcia, Jorge demorou o cumprimento desse dever emquanto lhe foi possivel fazel-o sem reparo. Um dia, emfim, sabendo por intermedio do Sr. Antunes que a familia não estava em casa, foi a Santa Thereza e deixou lá um bilhete de visita.