—Já! exclamou Luiz Garcia. Foi visita de medico. Agradeço-lhe, entretanto, a attenção. Esta casa é sua; sabe que todos nós o estimamos.

Jorge seguiu para casa, contente e arrependido da visita que acabava de fazer. Gastou as primeiras horas da noite a folhear dez ou doze tomos, lendo a troncos duas ou tres paginas de cada um, quando os olhos estavam mais attentos na pagina aberta, o espirito saía pé ante pé e deitava a correr pela infinita campanha dos sonhos vagos. Voltava de quando em quando; e os olhos que haviam chegado mecanicamente ao fim da pagina tornavam ao principio, a reatar o fio da attenção. Como se a culpa fosse do livro, trocava-o por outro, e ia da philosophia á historia, da critica á poesia, saltando de uma lingua a outra, e de um seculo a outro seculo, sem outra lei mais que o acaso.

O clarão da seguinte manhã dissipou uma parte dos cuidados da noite. O primeiro alvoroço tinha passado. Jorge disse a si mesmo que bastava ser homem, esquecer o incidente da vespera, e arredar para sempre a possibilidade de outros. Não repetiria a visita a Luiz Garcia; e provavelmente não os veria nunca mais. Na rua do Ouvidor encontrou Procopio Dias, que lhe disse á queima-roupa:

—Entrei meia hora depois do senhor sair.

—Onde?

—Em Santa Thereza. Se se demora meia hora mais, encontrava-o e poderiamos ter descido juntos. Conhece ha muito tempo o Luiz Garcia?

—Desde muito moço.

—Tambem eu; mas não o via ha dez annos. Está o mesmo homem; está melhor, porque casou com uma mulher bonita. Que gente é aquella?

—A mulher foi educada por minha mãe.

—Vê-se que sim. Oh! falámos muito do senhor.