—Sim? perguntou vivamente Jorge.
Procopio Dias olhou fixamente um instante; depois riu com a testa.
—Muito, repetiu elle; eu e o Luiz Garcia travamos um duello de louvores, e se não ha nisto vaidade creio que o venci; naturalmente por que sou mais expansivo do que elle. Na verdade, elle é secco, mas o pouco que disse, disse-o com sinceridade. Parece estimar-se muito aquella familia.
Procopio Dias tornou a falar-lhe de Santa Thereza, na noite do dia seguinte, em uma casa onde jantaram juntos. Falou-lhe primeiramente em particular, depois deante de outros. A dona da casa, que era uma Diana caçadora de boatos e novidades, farejou algum mysterio entre as rugas da testa de Procopio Dias, e dobrando as pontas do arco disparou subtilmente uma flecha que ninguem viu, mas foi enterrar-se no coração de Jorge. Este fez boa cara ao tiro, mas lá dentro sangrou um pouco de irritação e medo. Sentia no fundo da consciencia o calor de um sentimento honesto, e comtudo a opinião tendia a apoderar-se delle e a devassar-lhe as cinzas do passado; cinzas frias ou mornas, é o que elle não podia ainda discernir. Confiado em si mesmo, Jorge tremia deante da opinião,—a opinião do epigramma e da anedocta, que começava a sacudir o seu riso escarninho e cru.
Inquieto e aborrecido, saiu dalli pouco depois de jantar. O gracejo da dona da casa continuava a zumbir-lhe ao ouvido, ao mesmo tempo que a figura de Estella lhe surgia aos olhos, com o seu aspecto do costume. Já entrado na rua dos Invalidos, Jorge desandou o caminho e foi direito a um theatro, com o fim de aturdir-se e esquecer mais depressa. Eram nove horas e meia; assistiu a um resto de drama, que lhe pareceu jovial, e a uma comedia inteira, que lhe pareceu lugubre. Não obstante, arejou o espirito dos cuidados da noite, e caminhou para casa mais leve e desassombrado. Era uma hora quando chegou; o creado entregou-lhe uma carta.
—A pessoa que trouxe esta carta disse que era urgente.
Jorge reeebeu-a, sem conhecer a lettra do sobrescripto. Era lettra de mulher. Abriu-a sem pressa, mas não sem curiosidade. Não era longa; dizia simplesmente isto:—«Illm. Sr. doutor. Papae está muito mal; pede-lhe o favor de vir a nossa casa.—Lina Garcia.»
—A que horas veiu esta carta? perguntou elle ao creado.
—Ás sete.
Jorge fez um gesto de enfado e mandou buscar um tilbury. Dahi a uma hora parava á porta de Luiz Garcia. Era tudo silencio. Jorge deteve-se alguns instantes, incerto sobre o que convinha fazer. O perigo, se perigo houve, podia ter passado, e toda a familia estaria em repouso. Espreitou pela porta do jardim, e viu uma claridade frouxa, atravez de uma veneziana. Logo depois ouviu passos na areia. Era o Sr. Antunes que sentira parar o tilbury.