—Meu genro está mal, disse o pae de Estella; teve esta manhã uma recahida e perto das oito horas cuidamos perdel-o.

Jorge entrou.

Luiz Garcia estava prostrado; a febre ardia-lhe sinistramente nos olhos. De um lado e de outro do leito, viam-se a mulher e a filha, apparentemente quietas, mas gastando toda a força moral em suster a angustia que ameaçava fazer-se em lagrimas.

—Que tem? perguntou Jorge approximando-se do enfermo.

—Uma febrinha importuna, respondeu este.

A um signal, Estella e Yayá retiraram-se da alcova, onde só ficou Jorge.

Mandando chamar o moço, Luiz Garcia punha em execução um pensamento que lhe brotara no calor da febre. Ouviu do medico algumas palavras que lhe fizeram suppôr a probabilidade da morte; e, não tendo amigos nem parentes, e não querendo confiar a mulher e a filha ao sogro, lançou mão da pessoa que lhe pareceu ter a sisudez bastante e a influencia necessaria para as dirigir e proteger.

—Seu pae foi amigo de meu pae, disse elle; eu fui amigo de sua familia; devo-lhe obsequios apreciaveis. Se eu morrer, minha mulher e minha filha ficam amparadas da fortuna, por que o dote de uma servirá para ambas, que se estimam muito; mas ficam sem mim. É verdade que meu sogro, mas... mas, meu sogro tem outras occupações, está velho, pode faltar-lhes de repente. Quizera pedir-lhe que as protegesse e guiasse; que fosse um como tutor moral das duas. Não é que lhes falte juizo; mas duas senhoras sósinhas precisam de conselhos... e eu... desculpe-me se sou indiscreto. Promette?

Jorge prometteu tudo, com o fim de o tranquillisar, porque Luiz Garcia parecia excessivamente afflicto com a ideia daquella eterna separação. O pedido affigurou-se-lhe singular; attribuiu-o á exaltação febril do doente. Soube depois que a vida de Luiz Garcia dependia da primeira crise que fizesse a enfermidade, segundo havia declarado o medico.

Eram quasi quatro horas quando Jorge de lá saiu. Voltou ás nove e achou o medico. A crise era esperada na tarde desse dia, e só então se poderia dizer se a vida do enfermo estava perdida ou salva. Foi o que o medico lhe repetiu, á porta do jardim, aonde Jorge o foi acompanhar.