—É verdade, murmurou Estella, que o escutara com a attenção dispersa e impaciente.

Logo depois ergueu-se e foi á janella. Alli sacudiu a cabeça com um gesto energico. Talvez lutavam nella forças contrarias; ou era o seu passado que emergia da sombra do tempo, com todas as cores vivas ou escuras, com as delicias occultas e nunca revelladas, e ao mesmo tempo com as amarguras e resistencias. Era isso; era o coração que mordia impaciente o freio da necessidade e do orgulho, e vinha pedir ainda uma vez o seu quinhão de vida, e pedia-o em nome daquella carta, expressão remota de um amor desenganado e impassivel. Estella suffocava esses impetos, mas elles vinham. Após alguns minutos, deixou a janella, tornou á cadeira onde estava. Luiz Garcia lia então um retalho de jornal. Não chegou a levantar os olhos.

Defronte, Yayá tinha os olhos cravados na madrasta. Ouvira a principio o nome de Jorge e não lhe prestara muita attenção; mas uma ou duas palavras soltas do pae haviam-lhe despertado a curiosidade. Yayá ergueu a cabeça, inclinou-a depois, ouviu a confidencia do pae, não obstante ser feita em voz baixa, e emfim não retirou mais os olhos de Estella. Viu-a receber a carta, com a mão tremula; viu-a empallidecer ainda mais; viu-lhe a confusão e o enleio. Porque o enleio e a confusão? Um amor extincto de Jorge, uma paixão que o levara á guerra, que tinha ella, que tinham elles tres com isso?

Yayá olhou a principio com curiosidade, depois com espanto, até que os olhos luziram de sagacidade e penetração. O estylete que elles escondiam desdobrou a ponta aguda e fina, e estendeu-a até ir ao fundo da consciencia de Estella. Era um olhar intenso, aquilino, profundo, que palpava o coração da outra, ouvia o sangue correr-lhe nas veias e penetrava no cerebro salteado de pensamentos vagos, turvos, sem ligação. Yayá adivinhou o passado de Estella; mas adivinhou de mais. Galgou a realidade até cair no possivel. Suppoz um vinculo anterior ao casamento, roto contra a vontade de ambos, talvez persistente, mau grado aos tempos e ás cousas. Tudo isso viu uma simples innocencia de dezesete annos. Seu pensamento cristalino e virginal, nunca embaciado pela experiencia, ignorava até as primeiras scismas de donzella. Não tinha ideia do mal; não conhecia as vicissitudes do coração. Jardim fechado, como a esposa do Cantico, viu subitamente rasgar-se-lhe uma porta, e esses dez minutos foram a sua puberdade moral. A creança acabara: principiava a mulher.

A impressão foi tão profunda, que apezar da força de resistencia que havia em sua organização, Yayá não pode ter-se alli mais tempo. Saiu e refugiou-se na alcova. Certo, aquelle amor intruso, se o havia, era para affligir e prostrar um coração de filha, amassado de ternura, para o qual a forma superior e exclusiva do sentimento era a paixão que a prendia a seu pae, como um vinculo indestructivel. Depois vinha o affecto que votava á madrasta, sua mãe electiva, affecto não menos sincero e real, e que já agora podia diminuir, quem sabe até se morrer todo?

Sentada na beira da cama, com os pés juntos, as mãos fechadas entre os joelhos, os olhos cravados no espelho que lhe ficava defronte, Yayá trabalhava mentalmente na sua descoberta. Confrontava o que acabava de ver com os factos anteriores, de todos os dias, isto é, a frieza, a indifferença, a stricta polidez dos dous, e mal podia combinar uma e outra cousa; mas ao mesmo tempo advertia que nem sempre estava presente quando Jorge alli ia, ou fugia-lhe muita vez, e podia ser que a indifferença não passasse de uma mascara. Demais, a commoção da madrasta era significativa. Estendeu o espirito pelo tempo atraz, até o dia da primeira visita de Jorge, e lembrou-se que elle estremecera ouvindo a voz de Estella, circumstancia que lhe pareceu então indifferente. Agora via que não.

Uma hora inteira gastou nesse cogitar solitario, a sós com a suspeita e o remorso. Tambem remorso, por que de quando em quando atterrada com a vista do caminho andado, a alma recuava e estremecia; tinha horror de si mesma. Mas a figura pallida da madrasta surgia ao pé della, com a expressão que lhe vira pouco antes, e a consciencia fazia as pazes com a malicia.

Vede a consequencia. Estella não era culpada; um incidente do passado é que projectava tamanha sombra na vida presente; mas bastou o espectaculo da commoção para turbar o espirito da enteada e lançar lá dentro os primeiros germens da sciencia do mal. Que seria se fosse culpada? Talvez o mais lastimoso effeito dos desvios domesticos é essa corrupção dos corações ingenuos, impassiveis testemunhas do que ignoram um dia, do que suspeitam, percebem e sabem na seguinte manhã: primeira violação da virgindade.

Yayá agitava-se na alcova, de um para outro lado, desejosa e receiosa ao mesmo tempo de ir ter com Estella. Duas vezes chegou á porta e recuou. Uma das vezes, voltando para dentro, deu com os olhos no retrato do pae que pendia junto á cabeceira,—uma simples photographia. Tirou-o dalli, contemplou longamente a fronte austera e pura. Que! Haveria na terra quem o amasse uma vez e não sentisse que o amor lhe dominaria a vida inteira? Tão affectuoso! tão bom! vivendo exclusivamente para os seus, sem nada invejar ao resto dos homens. Isto lhe dizia o coração, emquanto ella ia beijando o retrato com respeito, com amor, afinal com delirio. Grossas lagrimas e quentes lhe romperam dos olhos; Yayá deixou-as cair: sorveu-as com seus proprios beijos. Quando essa primeira explosão acabou, acabou para se não repetir mais. Enxutos os olhos Yayá pode friamente reflectir, e a reflexão dominou a angustia.

O que se passou naquelle cerebro ainda verde, mas já robusto, foi uma resolução sem plano. Deslindar o vinculo espurio era o essencial e urgente, não cogitou no modo. Sua innocencia, assim como lhe dissimulava toda extensão possivel do mal, assim tambem lhe encobria as asperezas e os obices da execução. Era o coração que lhe designava esse papel de anjo guardador. Natureza simples e intacta, ia direito ao fim sem o temor que dá a experiencia e a contemplação da vida. Quem sabe? Não conhecia a hypocrisia, mas acabava de suspeital-a; começava talvez a apprendel-a.