[II]
A hora aprazada era incommoda para Luiz Garcia, cujos habitos de trabalho mal soffriam interrupção. Não obstante, foi á rua dos Invalidos.
Valeria Gomes era viuva de um desembargador honorario, fallecido cêrca de dous annos antes, a quem o pae de Luiz Garcia devera alguns obsequios e a quem este prestara outros. Não havia entre ella e Luiz Garcia relações assiduas ou estreitas; mas a viuva e seu finado marido sempre o tiveram em boa conta e o tratavam com muito carinho. Defunto o desembargador, Valeria recorrera duas ou tres vezes aos serviços de Luiz Garcia; com tudo, era a primeira vez que o fazia com tamanha solemnidade.
Valeria recebeu-o affectuosamente, estendendo-lhe a mão, ainda fresca, apezar dos annos, que subiam de quarenta e oito. Era alta e robusta. A cabeça, forte e levantada, parecia protestar pela altivez da attitude contra a molleza e tristura dos olhos. Estes eram negros, a sobrancelha basta, o cabello abundante, listrado de alguns fios de prata. Posto não andasse alegre nos ultimos tempos, estava naquelle dia singularmente preoccupada. Logo que entraram na sala, deixou-se cair n'uma poltrona; caiu e ficou silenciosa alguns instantes. Luiz Garcia sentou-se tranquillamente na cadeira que ella lhe designou.
—Sr. Luiz Garcia, disse a viuva; esta guerra do Paraguay é longa, e ninguem sabe quando acabará. Vieram noticias hoje?
—Não me consta.
—As de hontem não me animaram nada, continuou a viuva depois de um instante. Não creio na paz que o Lopez veiu propor. Tenho medo que isto acabe mal.
—Póde ser, mas não dependendo de nós...
—Porque não? Eu creio que é chegado o momento de fazerem todas as mães um grande esforço e darem exemplos de valor, que não serão perdidos. Pela minha parte trabalho com o meu Jorge para que vá alistar-se como voluntario; podemos arranjar-lhe um posto de alferes ou tenente; voltará major ou coronel. Elle, entretanto, resiste até hoje; não é falta de coragem nem de patriotismo; sei que tem sentimentos generosos. Comtudo, resiste...
—Que razão dá elle?