E o preto repetia o primeiro jogo, depois o segundo, até que Yayá, aborrecida, passava a outra cousa.

Não havia só recreio. Uma parte minima do dia,—pouco mais de uma hora,—era consagrada ao exame do que Yayá aprendera no collegio, durante os dias anteriores. Luiz Garcia interrogava-a, fazia-a ler, contar e desenhar alguma cousa. A docilidade da menina encantava a alma do pae. Nenhum receio, nenhuma hesitação; respondia, lia ou desenhava, conforme lhe era mandado ou pedido.

—Papae quer ouvir tocar piano? disse ella um dia; olhe, é assim.

E com os dedos na borda da mesa, executava um trecho musical, sobre teclas ausentes. Luiz Garcia sorriu, mas um veu lhe empanou os olhos. Yayá não tinha piano! Era preciso dar-lhe um, ainda com sacrificio. Se ella aprendia no collegio, não era para tocar mais tarde em casa? Este pensamento enraizou-se-lhe no cerebro e turbou o resto do dia. No dia seguinte, Luiz Garcia encheu-se de valor, pegou da caderneta da Caixa Economica e foi retirar o dinheiro preciso para comprar um piano. Eram da filha as poucas economias que ajuntava; o piano era para ella egualmente; não lhe diminuia a herança.

Quando no seguinte sabbado, Yayá viu o piano, que o pae lhe foi mostrar, sua alegria foi intensa, mas curta. O pae abrira-o, ella accordou as notas adormecidas no vasto movel, com suas mãosinhas ainda incertas e debeis. A um dos lados do instrumento, com os olhos nella, Luiz Garcia pagava-se do sacrificio, contemplando a satisfação da filha. Curta foi ella. Entre duas notas, Yayá parou, olhou para o pae, para o piano, para os outros moveis; depois descaiu-lhe o rosto, disse que tinha uma vertigem. Luiz Garcia ficou assustado, pegou della, chamou Raymundo; a creança affirmou que estava melhor, e finalmente que a vertigem passara de todo. Luiz Garcia respirou; os olhos de Yayá não ficaram mais alegres, nem ella foi tão travessa como costumava ser.

A causa da mudança, desconhecida para Luiz Garcia, era a penetração que madrugava no espirito da menina. Lembrara-se ella, repentinamente, das palavras que proferira e do gesto que fizera, no domingo anterior; por ellas explicou a existencia do piano; comparou-o, tão novo e lustroso, com os outros moveis da casa, modestos, usados, encardida a palhinha das cadeiras, roido do tempo e dos pés um velho tapete, contemporaneo do sophá. Dessa comparação extrahiu a ideia do sacrificio que o pae devia ter feito para condescender com ella; ideia que a poz triste, ainda que não por muito tempo, como succede ás tristezas pueris. A penetração madrugava, mas a dor moral fazia tambem irrupção naquella alma até agora isenta da jurisdicção da fortuna.

Passou! Bem depressa os sons do piano vieram casar-se ao gorgeio de Yayá e ao riso do escravo e do senhor. Era mais uma festa aos domingos. Yayá confiou um dia ao pae a ideia que tinha de ser mestra de piano. Luiz Garcia sorria a esses planos da meninice, tão frageis e fugidios como suas impressões. Tambem elle os tivera aos dez annos. Que lhe ficara dessas primeiras ambições? Um residuo e nada mais. Mas assim como as aspirações daquelle tempo o fizeram feliz, era justo não dissuadir a filha de uma ambição, aliás innocente e modesta. Oxalá não viesse a ter outras de mais alto vôo! Demais, que lhe poderia elle desejar, senão aquillo que a tornasse independente e lhe désse os meios de viver sem favor? Yayá tinha por si a belleza e a instrucção; podia não ser bastante para lhe dar casamento e familia. Uma profissão honesta aparava os golpes possiveis da adversidade. Não se podia dizer que Yayá tivesse talento musical: que importa? Para ensinar a grammatica da arte, era sufficiente conhecel-a.

Resta dizer que havia ainda uma terceira affeição de Yayá; era Maria das Dores, a ama que a havia creado, uma pobre catharinense, para quem só havia duas devoções capazes de levar uma alma ao ceu: Nossa Senhora e a filha de Luiz Garcia. Ia ella de quando em quando á casa deste, nos dias em que era certo encontrar lá a menina, e ia de S. Christovão, onde morava. Não descançou em quanto não alugou um casebre em Santa Thereza, para ficar mais perto da filha de creação. Um irmão, antigo forriel, que fizera a campanha contra Rosas, era seu companheiro de trabalho.

Tal era a vida uniforme e placida de Luiz Garcia. Nenhuma ambição, cobiça ou peleja vinha toldar-lhe a serenidade da alma. A ultima dor séria que tivera foi a morte da esposa, occorrida em 1859, mezes antes de ir-se elle esconder em Santa Thereza. O tempo, esse chimico invisivel, que dissolve, compõe, extrahe e transforma todas as substancias moraes, acabou por matar no coração do viuvo, não a lembrança da mulher, mas a dor de a haver perdido. Importa dizer que as lagrimas derramadas nessa occasião honraram a esposa morta, por serem conquista sua. Luiz Garcia não casára por amor nem interesse; casara porque era amado. Foi um movimento generoso. A mulher não era de sua mesma indole; seus espiritos vinham de pontos differentes do horizonte. Mas a dedicação e o amor da esposa abriram nelle a fonte da estima. Quando ella morreu, viu Luiz Garcia que perdera um coração desinteressado e puro; consolou-o a esperança de que a filha havia herdado uma parcella delle.

Assim vivia esse homem sceptico, austero e bom, alheio ás cousas extranhas, quando a carta de 5 de Outubro de 1866 veiu chamal-o ao drama que este livro pretende narrar.