E seguia d'alli a mudar de roupa, e a visitar o resto da casa e o jardim. No jardim achava o pae já sentado no banco do costume, com uma das pernas sobre a outra, e as mãos cruzadas sobre o joelho. Ia ter com elle, sentava-se, erguia-se, colhia uma flor, corria atraz dos insectos. De noite, não havia trabalho para Luiz Garcia; a noite, como o dia seguinte, era toda consagrada á creança. Yayá referia ao pae as anedoctas do collegio, as puerilidades que não valem mais nem menos que outras da edade madura, as intriguinhas de nada, as pirraças de cousa nenhuma. Luiz Garcia escutava-a com egual attenção á que prestaria a uma grande narrativa historica. Seu magro rosto austero perdia a frieza e a indifferença; inclinado sobre a mesa, com os braços estendidos, as mãos da filha nas suas, considerava-se o mais venturoso dos homens. A narrativa da pequena era como costumam ser as da edade infantil: desegual e truncada, mas cheia de um colorido seu. Elle ouvia-a sem interromper; corrigia, sim, algum erro de prosodia ou alguma reflexão menos justa; fóra disso, ouvia sómente.
Pouco depois da madrugada todos tres estavam de pé. O sol de Santa Thereza era o mesmo da rua dos Arcos; Yayá, porém, achava-lhe alguma cousa mais ou melhor, quando o via entrar pela alcova dentro, atravez das persianas. Ia á janella que dava para uma parte do jardim. Via o pae bebendo a chicara de café, que aos domingos precedia o almoço. Ás vezes ia ter com elle; outras vezes elle caminhava para a janella, e, com o peitoril de permeio, trocavam os osculos da saudação. Durante o dia, Yayá derramava pela casa todas as sobras de vida, que tinha em si. O rosto de Luiz Garcia accendia-se de um reflexo de juventude, que lhe dissipava as sombras accumuladas pelo tempo. Raymundo vivia da alegria dos dous. Era domingo para todos tres, e tanto o senhor como o antigo escravo não ficavam menos collegiaes que a menina.
—Raymundo, dizia esta, você gosta de santo de comer?
Raymundo empertigava o corpo, abria um riso, e dando aos quadris e ao tronco o movimento de suas danças africanas, respondia cantarolando:
—Bonito santo! santo gostoso!
—E santo de trabalhar?
Raymundo, que já esperava o reverso, estacava subitamente, punha a cabeça entre as mãos, e affastava-se murmurando com terror:
—Eh... eh... não fala nesse santo, Yayá! não fala nesse santo!
—E santo de comer?
—Bonito santo! santo gostoso!