—Mas parece ter bom coração, e creio que gosta muito do pae.
—Tambem Estella gosta de mim.
Jorge fechou neste ponto a conversação. Seu pensamento voltou á revelação inopinada do Sr. Antunes. Por mais indifferente que Yayá lhe fosse, Jorge sentia-se molestado com a certeza de que a moça não gostava delle. Porque seria? Simples antipathia ou outra cousa?
A preoccupação desvaneceu-se na tarde do dia seguinte, quando Jorge appareceu em casa de Luiz Garcia. Foi a propria Yayá quem veiu abrir-lhe a porta do jardim dizendo, alegremente:—Entre, Sr. doutor, que já se fazia esperado. Jorge não pode esconder o assombro que lhe produzira aquella recepção; nem o assombro nem a alegria. Entrou e estendeu-lhe a mão.
—Não posso, tornou a moça mostrando a sua, fechada; só se adivinhar o que está aqui dentro.
—Não é uma estrella.
—Não, senhor; é um cavallo.
No fundo do jardim estava Luiz Garcia, com o taboleiro do xadrez: acabava de dar uma licção á filha, que lh'a pedira desde antes do jantar. Yayá levou até lá o filho de Valeria. Pela primeira vez sentou-se ao pé dos dous para vel-os jogar; fincou os cotovellos na mesa e encostou o queixo nas mãos; queria aprender, dizia ella, em tres semanas.
—Tres semanas! repetiu o pae a sorrir e a olhar para Jorge.
Das qualidades necessarias ao xadrez, Yayá possuia as duas essenciaes: vista prompta e paciencia benedictina; qualidades preciosas na vida, que tambem é um xadrez, com seus problemas e partidas, umas ganhas, outras perdidas, outras nullas.