—Oh! exclamou Jorge rindo.
—Não tem, digo-lhe eu. Está alli, está no hospicio. Não se póde dizer que seja travessura, porque não está em edade disso; é pancada. Se soubesse as cousas que ella faz ás vezes!
—Não me parece; quando a vejo, é sempre com um modo comedido, e muitas vezes serio...
—Lá isso. é porque ella não gosta do senhor.
—Não gosta de mim? perguntou Jorge admirado.
—Não digo que absolutamente não goste, obtemperou o pae da Estella; não lhe tem muita sympathia, é o que é.
—Como sabe você disso?
—Ouvi uma vez o pae reprehendel-a, por que de proposito voltara as costas ao senhor; e então ella levantou os hombros, assim com um ar de pouco caso. O pae tornou a dizer que aquillo não era bonito, mas perdeu o tempo; Yayá pregou os olhos nas unhas, com a testa franzida, e eu sai porque já não podia aturar nem um nem outro.
Jorge ficou alguns instantes pensativo. Era certo que Yayá o tratara sempre com muito resguardo e frieza; mas, supposto que isso não significasse sympathia, e até lhe sentisse alguma hostilidade, estava longe de attribuir-lhe declarada aversão. Do gesto a que o Sr. Antunes alludira, não se lembrava absolutamente, mas era possivel. Demais, pensou elle, o Sr. Antunes não o inventaria na occasião; não era callumniador; faltava-lhe essa ferocidade. Mas, porque motivo não gostaria delle a filha de Luiz Garcia? Era a segunda vez que Jorge fazia essa pergunta, sem lhe achar resposta plausivel. Em seguida, recordou-se da noite anterior, e observou ao pae de Estella que Yayá o tratara na vespera com alguma cordialidade.
—Milagre de anno bom! explicou o Sr. Antunes. Tambem lhe digo que não perde nada se ella não gostar do senhor; é uma fortuna. Porque ella, quando gosta de uma pessoa, é de fazer-lhe perder a paciencia.